Lasers e DNA Revelam Segredos dos Antigos Povos da Amazônia
Lasers e análise de DNA estão desvendando os segredos dos antigos povos da Amazônia. Estudos recentes revelam populações surpreendentemente grandes e um repertório agrícola mais variado do que se imaginava, reescrevendo a história da região pré-colombiana.
A Amazônia pré-colombiana guarda segredos que tecnologias modernas como lasers e análise de DNA estão gradualmente revelando. Um estudo publicado na revista Nature em meados deste ano trouxe à tona a antiga civilização dos aquiry, no Acre, com estimativas de até três milhões de habitantes e a construção de 30 mil geoglifos, estruturas de terra compactada, há cerca de 2 mil anos. Essa descoberta, longe de ser um fato isolado, insere-se em um contexto de pesquisas que, nas últimas duas décadas, têm transformado as estimativas populacionais e a compreensão da sofisticação agrícola e arquitetônica dos povos locais.
O mapeamento com a tecnologia LiDAR, que utiliza pulsos de laser para enxergar através da copa das árvores, tem sido fundamental para encontrar assentamentos antigos abandonados sob a mata. O estudo sobre os aquiry, liderado pelo finlandês Martti Pärssinen e com participação do brasileiro Alceu Ranzi, é um dos exemplos mais expressivos dessa aplicação. No entanto, o projeto Amazônia Revelada, coordenado pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor da USP, também utiliza o LiDAR em parceria com povos indígenas para explorar o patrimônio arqueológico de seus ancestrais. Segundo Neves, essa tecnologia revolucionou a arqueologia, permitindo em uma manhã de campo o que antes levava um mês.
Esses estudos têm descoberto não apenas sítios de ocupação indígena, mas também vestígios de vilas coloniais portuguesas e estruturas incomuns como paredes de pedra, sugerindo influências de culturas andinas. As grandes estruturas de terra compactada, como os geoglifos, indicam uma escala e complexidade surpreendentes nas habitações humanas pré-colombianas, com a possibilidade de terem existido cidades na região. As estimativas populacionais pré-colombianas na Amazônia, que antes variavam entre oito e dez milhões de habitantes, podem ser revistas com a nova perspectiva sobre o tamanho de civilizações como a Aquiry.
Análises de DNA e de fragmentos vegetais preservados como fósseis complementam o conhecimento. A percepção de que os indígenas possuíam um repertório agrícola limitado, restrito basicamente à mandioca, tem sido desafiada. Há indícios de domesticação de milho, abóboras, inhame, cacau, cupuaçu e até mesmo variedades selvagens de arroz, uma delas domesticada na Amazônia há cerca de 4 mil anos, segundo o uruguaio José Iriarte, da Universidade de Exeter. A expectativa é de que a combinação do LiDAR com o trabalho de campo continue a desvendar as complexas histórias dos antigos povos amazônicos.