Economia

IA nas empresas: falta regras e treinamento, diz pesquisa

ResumoA pesquisa RH Digital & IA 2026, da Alina, revela que 86% das empresas priorizam ampliar o uso de IA em 2026, enquanto apenas 29% possuem políticas claras e 43% oferecem treinamento. O descompasso entre incentivo e preparo expõe lacunas críticas em governança e capacitação. A falta de regras e treinamento compromete a adoção responsável da tecnologia.

86% das empresas priorizam ampliar IA em 2026, mas apenas 29% têm políticas claras e 43% oferecem treinamento. A pesquisa RH Digital & IA 2026, da Alina, mostra o descompasso entre incentivo e preparo.

Tânia Lustosa
Tânia Lustosa Colunista de economia e sociedade · 29 de agosto de 2026
IA nas empresas: falta regras e treinamento, diz pesquisa

A corrida corporativa pela inteligência artificial começou antes de parte das empresas responder a perguntas básicas: quem pode usar a tecnologia, para quê, com quais regras e qual treinamento. A pesquisa RH Digital & IA 2026, realizada pela Alina, plataforma de gestão de pessoas com IA e people analytics, ouviu 51 empresas de diferentes portes e setores, majoritariamente via C-level e diretores. Cerca de 20% têm mais de mil funcionários.

Entre elas, 86% consideram prioridade ampliar o uso de IA em 2026. Mas só 29% possuem políticas claras sobre o uso e 45% afirmam ter estratégia definida para informatização. Apenas 10% avaliam que suas equipes têm conhecimento avançado para conduzir esses processos.

A distância entre incentivo e preparo fica evidente: 75% incentivam colaboradores a usar IA, mas só 39% dizem que os funcionários sabem identificar onde e como aplicar. "O avanço da IA é inegável", afirma Marcel Hwa, CEO da Alina. "Mas os dados mostram que é preciso transformar essa prioridade declarada em políticas efetivas e capazes de orientar o uso da tecnologia, preparar as equipes e estabelecer critérios claros para sua aplicação."

O descompasso também aparece na liderança: em 76% das empresas, mais da metade dos líderes usa IA, mas só 41% têm orçamento definido e apenas 24% medem o uso. Treinamento é ainda mais raro: 43% oferecem capacitação específica, enquanto 63% apontam falta de conhecimento como principal barreira.

Outro levantamento, da Hashtag Treinamentos, com 5.569 profissionais, encontrou que só 20,6% percebiam investimento claro em IA nas organizações. Outros 20,4% tinham ferramentas sem treinamento, e 13,1% relataram capacitações pontuais. As metodologias diferem, mas ambas mostram a mesma distância entre disponibilizar tecnologia e preparar pessoas.

A lacuna não é só brasileira. Pesquisa da McKinsey indica que 71% dos profissionais acreditam que a IA afetará seu trabalho e exigirá novas competências. E 24% disseram não ter recebido nenhuma hora de treinamento corporativo em 12 meses, não só em IA.

Estudo de Nicholas Bloom, da Stanford Graduate School of Business, com 6 mil executivos, mostra que cerca de três quartos já usam IA, mas projetam ganhos médios de apenas 1,4% em produtividade e 0,8% em produção. O uso médio entre líderes é de 1,5 hora por semana; um quarto não usa nenhuma ferramenta.

Rennan Vilar, diretor de Pessoas e Cultura do Grupo Todos Internacional, fala da distância entre discurso e prática: "Toda empresa consegue comunicar muito bem seus valores durante um processo seletivo. A diferença aparece quando o profissional começa a viver a rotina." Ele recomenda observar clareza de expectativas, autonomia e estrutura para trabalhar.

Na Alina, o RH aparece no centro: 73% das empresas dizem que a área conduz a jornada de transformação digital. Mas a digitalização avança em ritmos diferentes: folha de pagamento e ponto digital alcançam 3,3 numa escala de 1 a 5, people analytics fica em 2,4, e simulações de mudanças organizacionais, em 1,8.

Pesquisa da Caju com 317 respostas atribuiu ao RH brasileiro nota média de 37 numa escala de 0 a 100, ainda na segunda onda do modelo de Dave Ulrich, a fase funcional. A estratégica começa acima de 50.

Para o trabalhador, aprender IA tende a ganhar importância, mas a responsabilidade não pode ficar só com quem usa a ferramenta. Empresas terão de definir regras, oferecer treinamento e medir resultados. A segunda etapa da corrida pode ser mais difícil que a primeira.

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