Análise: Por que Putin acredita que ainda pode vencer
Putin mantém aposta na resistência, acreditando que a Ucrânia desmoronará. Especialistas analisam os riscos e a estratégia russa para o inverno.
No quinto ano de guerra, os problemas para Vladimir Putin se acumulam. As tropas russas desaceleraram no front, os gastos superaram as expectativas e a população mostra preocupação crescente. A capacidade de projetar controle foi abalada por ataques ucranianos quase diários a armazéns de comércio eletrônico, refinarias de petróleo e outras instalações estratégicas. A situação chegou a ponto de o diretor da CIA, John Ratcliffe, fazer uma rara visita a Moscou, apresentando uma avaliação sombria e incentivando um acordo de paz.
Putin, porém, dá poucos sinais de recuo. Ele sugere que a situação de Kiev seria ainda pior e alerta que a Ucrânia "tirou o gênio da garrafa" ao atacar a economia civil russa, sofrendo as consequências de uma escalada militar em andamento. As negociações de paz apoiadas pelos EUA seguem sem resultados tangíveis.
"Na avaliação dele, a Rússia só precisa se sair um pouco melhor do que a Ucrânia", afirma Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center, em Berlim. Para o especialista, Putin acredita que Kiev "acabará desmoronando" se ele resistir por mais tempo. Gabuev nota que o líder russo subestima repetidamente a resiliência ucraniana, mas o país enfrenta novos perigos: escassez de soldados, recursos e, principalmente, sistemas de defesa aérea, consumidos pelo conflito no Irã.
A Rússia produz dezenas de mísseis balísticos por mês, armamento que a Ucrânia não possui em quantidade equivalente, e recorre à Coreia do Norte para reforçar o arsenal. Esse desequilíbrio pode estar convencendo Putin de que conquista vantagem decisiva. Gabuev afirma que ele tentará "quebrar" a Ucrânia neste inverno, destruindo infraestrutura civil e instalações de produção militar.
Enquanto insiste na guerra, Putin contém uma situação doméstica pior que há um ano. Durante boa parte de 2025, as forças russas avançaram dezenas de quilômetros quadrados por mês, e a aproximação com a administração Trump alimentou expectativas de paz. Agora, o cenário mudou. "O maior desafio de Putin hoje é que as expectativas estão mudando", diz Janis Kluge, analista do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança. "Se você faz parte da elite de Moscou e olha para o futuro, percebe que as coisas estão indo na direção errada."
Os ganhos territoriais líquidos da Rússia somaram apenas cerca de 176 quilômetros quadrados desde 1º de junho, com esforços concentrados em Donetsk. As conversas de paz seguem suspensas. "Quanto às conversas de paz, esse tema está completamente suspenso neste momento", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. "Não há novas ideias."
Internamente, o humor se deteriora. Pesquisa do Levada Center mostra apoio às ações militares no menor nível desde o início da invasão. Novos impostos para financiar a guerra pioram as perspectivas econômicas, e muitos russos sacam dinheiro dos bancos, seja por falhas na internet ou para evitar a carga tributária. Há escassez de combustível e ataques repetidos aos centros logísticos de Wildberries e Ozon.
Sinais discretos de insatisfação surgem na elite. Herman Gref, do Sberbank, afirmou que os russos desejam o fim da guerra. Sergei Sobyanin, prefeito de Moscou, alertou que colocar toda a economia a serviço do esforço militar poderia "matar o país por completo". O governo impediu a participação do partido antiguerra Yabloko nas eleições parlamentares do próximo mês.
Para Thomas Graham, especialista que integrou o governo de George W. Bush, a escalada e as dificuldades de ambos os lados deveriam levar os EUA a liderar novo esforço diplomático. "Existe uma parcela relevante da elite política que gostaria de encerrar esse conflito mais cedo do que tarde." Putin, por sua vez, incentiva os russos a resistir, visitando uma ilha disputada pelo Japão e argumentando que os problemas internos decorrem do sucesso militar de Moscou.