Deflação em agosto aumenta apostas em corte da Selic
O IPCA caiu 0,32% em agosto, a maior deflação mensal em quatro anos, informou o IBGE. O resultado reforçou as apostas em mais um corte de 0,25 ponto na Selic, hoje em 14% ao ano, na reunião do Copom da semana que vem.
A inflação deu um sossego em agosto. O IPCA, índice oficial, recuou 0,32%, a maior deflação mensal em quatro anos, desde agosto de 2022, informou o IBGE. O resultado foi melhor do que o previsto pelo mercado, que esperava queda de 0,28%, e reforçou as condições para o Banco Central cortar mais 0,25 ponto na taxa básica de juros, a Selic, hoje em 14% ao ano, na reunião da semana que vem do Comitê de Política Monetária (Copom).
O alívio veio de dois pontos. O primeiro foi pontual: o bônus de Itaipu, valor distribuído aos consumidores de eletricidade quando há saldo positivo na conta de comercialização da usina hidrelétrica controlada por Brasil e Paraguai, derrubou os preços da energia elétrica residencial em 7,63%, a maior queda desse item no IPCA em meses de agosto desde a introdução do real, em julho de 1994. O segundo foi o grupo alimentação e bebidas, que caiu 0,34% e acumulou três meses seguidos de queda.
O gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves, resumiu o movimento: "O resultado tem a influência grande da energia elétrica, por causa do bônus de Itaipu. Mas tivemos recuos importantes de alguns alimentos, a passagem aérea ficou mais barata, e também os combustíveis, com destaque para a gasolina." As passagens aéreas recuaram 13,17%, e a gasolina caiu 0,59%. No grupo alimentação em domicílio, que cedeu 0,61%, as principais baixas foram batata-inglesa (-19,89%), cenoura (-11,22%), cebola (-11,07%), tomate (-10,94%), ovo de galinha (-4,15%) e café moído (-1,86%).
O ponto de atenção é o que vem depois. De agora em diante, chuvas e calor mais intensos, típicos da primavera e do verão, costumam ser menos favoráveis para a produção de alimentos. Sazonalmente, são meses de comida mais cara, e o movimento pode ser intensificado por um El Niño mais forte, fenômeno climático marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico.
A economista do banco C6, Cláudia Moreno, avalia que o alívio nos alimentos "está sendo um pouco mais acentuado este ano", mas lembra que a economia brasileira gira em sua plena capacidade. Para Matheus Pizzani, economista da PicPay, não há sinais, nos dados de agosto, de que a desaceleração provocada pelos juros altos foi suficiente para esfriar a inflação para valer: "Existe uma desaceleração, mas o mercado de trabalho ainda se comporta de maneira restritiva."
O relatório da consultoria 4intelligence projeta que os alimentos abandonem a deflação já em setembro, por causa de altas esperadas em cereais, leguminosas e oleaginosas, farinhas, féculas e massas, tubérculos, raízes e legumes (com destaque para o tomate), açúcares e derivados, frutas, carnes, pescados, panificados e óleos e gorduras. A conta de luz também ficará mais cara com o fim do bônus de Itaipu. Para Fábio Romão, economista da consultoria, o mercado de trabalho desacelera, mas a renda continua crescendo, e a atividade mais fraca ainda não dá sinal claro de mudança na curva de juros.