Crise EUA-Brasil trava cooperação contra crime organizado
Uma crise diplomática entre EUA e Brasil está travando a cooperação contra o crime organizado. O Departamento de Estado segura vistos de dois agentes da PF, e o Brasil bloqueia visto de um agente americano em retaliação.
Uma crise diplomática entre Estados Unidos e Brasil está dificultando a cooperação no combate ao crime organizado. O Departamento de Estado dos EUA está segurando a concessão de vistos para dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para postos em Miami e Nova York, onde trabalhariam com o Homeland Security Investigations e outras agências federais. Em resposta, o Brasil passou a bloquear o visto de um agente de segurança pública dos EUA que seria designado para atuar no país.
O governo americano, alegando agenda ocupada, também recusou um pedido de visita de agentes da Receita Federal e da Aduana brasileira que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas ligados a facções internacionais do narcotráfico. As informações são de autoridades americanas e brasileiras que falaram sob condição de anonimato.
O que está em jogo na cooperação
Os dois agentes da PF que ainda não obtiveram os vistos estavam previstos para assumir seus postos no mês passado. Eles já haviam sido selecionados e aprovados por autoridades dos dois países no início do ano, como parte de uma renovação de quadros de rotina. Um dos adidos policiais substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, expulso dos Estados Unidos em abril após ser acusado pelo governo Trump de sofrer perseguição política em razão de seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. O ex-chefe havia fugido para os EUA depois de ser condenado por planejar um golpe de Estado ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em resposta à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente de segurança pública dos EUA que atuava em Brasília. Agora, o país segura o visto do substituto desse agente até que seus próprios adidos sejam autorizados a assumir seus postos.
Interrupções em um contexto de relações desgastadas
As interrupções na cooperação ocorrem em um cenário de relações já desgastadas ao longo do último ano, decorrentes de tentativas do presidente americano, Donald Trump, de interferir em assuntos internos do Brasil. O atrito se aprofundou diante da aparente disposição do governo americano em ajudar Flávio Bolsonaro, candidato de direita que disputa a eleição de outubro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras", disse Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal do Brasil. "Por isso, precisamos trabalhar juntos."
"A percepção é que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil ficou contaminada pela política", disse Robert Muggah, especialista em segurança e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé. "Isso não levou a uma ruptura definitiva, mas introduziu novas complexidades na relação e a permeou de desconfiança."
O Departamento de Estado dos EUA não comentou detalhes sobre os vistos, mas afirmou em nota que o governo Trump está protegendo "a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública em nosso processo de concessão de vistos". A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) disse estar comprometida em manter diálogo com autoridades brasileiras para avançar em "metas de segurança e combate ao crime transnacional". A Polícia Federal brasileira e o Itamaraty não comentaram o assunto.
combate a facções criminosas na América Latina