Brasil bate recorde no turismo, mas fica fora do Top 10
O Brasil recebeu mais de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um recorde. Ainda assim, ficou fora do Top 10 do ranking do WTTC, liderado por Estados Unidos e China. O que explica a distância?
O Brasil recebeu mais de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um recorde. Mesmo assim, o país ficou de fora do Top 10 das maiores economias turísticas do mundo no ranking divulgado pelo World Travel & Tourism Council (WTTC) em 3 de setembro. Estados Unidos e China lideram, seguidos por Alemanha, México, França, Espanha, Itália, Reino Unido, Japão e Índia.
O dado que mais chama atenção é outro: o México ocupa a quarta posição, à frente de França, Espanha, Itália, Reino Unido e Japão, e é hoje a maior economia turística da América Latina no ranking. O Brasil, portanto, segue distante de um vizinho com porte populacional e territorial menor.
O recorde tem um só motor
O avanço brasileiro merece leitura cuidadosa. Só nos primeiros 11 meses do ano, mais de 3 milhões de argentinos vieram ao Brasil, crescimento de 82% em relação ao mesmo período de 2024. Ou seja, boa parte da aceleração veio de um mercado específico e de condições cambiais momentaneamente favoráveis, não de uma base diversificada de emissores.
O que os líderes fizeram diferente
A China trabalha com planos de cinco anos dentro de uma visão mais longa. Seu plano turístico 2021-2025 já mirava transformar o país em potência mundial do turismo até 2035, combinando conectividade, infraestrutura, tecnologia e facilitação de entrada. A Espanha desenhou em 2019 sua Estratégia de Turismo Sustentável 2030. O Japão institucionalizou sua política nacional por lei em 2006; o plano atual, válido de 2026 a 2030, é o quinto desde então e prevê 60 milhões de visitantes internacionais e 15 trilhões de ienes em gastos.
São países diferentes, sem modelo único a copiar. Mas há elementos comuns: visão de longo prazo, metas mensuráveis, coordenação, continuidade e capacidade de execução.
O efeito multiplicador e o gargalo da execução
Um estudo da UFF para a Embratur mostra que cada R$ 1 gasto por turista internacional no Brasil movimenta R$ 3,31 na economia, somando impactos diretos, indiretos e induzidos. Estudos apresentados pela IATA indicam que essas divisas se espalham por 52 setores. Cada R$ 1 milhão de receita do turismo internacional sustenta 34 empregos. No Nordeste, o turismo representa cerca de 9,8% do PIB regional e responde por aproximadamente 433 mil empregos formais.
O Brasil tem planejamento: o Plano Nacional de Turismo 2024-2027 estabelece objetivos e metas. O problema é a execução. Desde a criação do Ministério do Turismo, em 2003, o país teve 22 ministros em 23 anos, incluindo interinidades. Uma nova rota internacional não se consolida em seis meses. Um aeroporto não se amplia em um mandato.
Os números expõem problemas estruturais. O Brasil perdeu 85 rotas aéreas desde 2019, enquanto a Colômbia ganhou 49 no mesmo período. Na política de vistos, o país acertou ao retirar neste ano a exigência para visitantes chineses, mas ainda exige visto de turistas dos Estados Unidos.
Há ainda pressão de custo. No início do mês, a Petrobras aumentou em 13,9% o preço médio do querosene de aviação. Desde dezembro, o QAV acumula alta de 53,3%, ou R$ 1,94 por litro. Segundo a Abear, cada R$ 1 acrescentado ao litro pode retirar 225 mil passageiros do mercado. O vice-presidente regional da IATA, Peter Cerdá, projetou na Assembleia Geral da entidade, no Rio, que a reforma tributária pode elevar em até 23% o preço médio das passagens domésticas e em 26,3% o das internacionais, com queda próxima de 30% na demanda. Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, afirmou que a companhia paga cerca de R$ 2 bilhões por ano em tributos e pode chegar a aproximadamente R$ 6 bilhões com a reforma integral.
No fim, a conta chega ao consumidor. Passagem mais cara significa menos passageiros, menos ocupação em hotéis, menos consumo e menos atividade nos destinos.
O turismo representa hoje cerca de 7,7% do PIB brasileiro, enquanto no mundo a participação fica próxima de 10%. O peso do setor na economia nacional está mais de 20% abaixo da média mundial. O recorde de visitantes é boa notícia, mas não é ponto de chegada. O desafio é transformar potencial em crescimento, emprego e renda por meio de uma política de Estado com horizonte de pelo menos dez anos, executada em planos de quatro ou cinco anos, com metas objetivas, orçamento previsível e responsáveis definidos.