Crédito privado: 6 pontos além da taxa para avaliar
Em crédito privado, a taxa é só parte da análise. Qualidade do emissor, concentração, estrutura e liquidez definem a relação entre risco e retorno. Veja os seis pontos que gestoras e a CVM apontam antes e depois de investir.
Em crédito privado, a taxa oferecida por uma debênture, um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) ou outro título é apenas uma parte da análise. Qualidade do emissor, concentração, estrutura da operação e liquidez também ajudam a determinar a relação entre risco e retorno. Esse cuidado ganha peso em um momento no qual os spreads, diferença entre a remuneração do crédito e sua referência como o CDI, podem não compensar determinados riscos.
Em setembro, a XP reduziu a exposição ao crédito privado pós-fixado em sua alocação e informou ter adotado maior seletividade diante do estágio atual do ciclo da classe. No relatório mensal, a instituição afirma que os prêmios disponíveis nem sempre compensam adequadamente os riscos de crédito, liquidez e estrutura assumidos.
O que avaliar além da taxa
- Qualidade do emissor: a análise passa pelos fundamentos das companhias, com balanço, geração de caixa e capacidade de pagamento.
- Concentração: a XP apresenta como boa prática evitar exposição superior a 5% em um único emissor e a 20% da carteira no total da classe. São parâmetros recomendados, não limites regulatórios.
- Estrutura da operação: quem deve, as garantias e os próprios valores mobiliários entram na decisão, segundo a CVM.
- Subordinação: avaliar quem ocupa a posição subordinada depende das regras de cada estrutura e precisa ser analisado caso a caso.
- Liquidez: existe o risco de não conseguir vender o título antes do vencimento por um preço justo.
- Acompanhamento: a avaliação não termina quando o ativo entra na carteira.
Anderson Peres, sócio-fundador da Valore Elbrus, afirma que a casa adota postura mais conservadora na seleção de emissores. A Valore trabalha com teto de aproximadamente 3,5% da carteira do cliente por crédito, para evitar que um evento negativo isolado tenha peso excessivo sobre o patrimônio. A casa identifica relações mais interessantes entre risco e retorno em setores com receitas mais previsíveis ou resilientes, como energia, saneamento e frigoríficos, e relata maior cautela com papéis de segmentos mais sensíveis aos juros, como construção civil, varejo e agronegócio.
Peres cita a Americanas como exemplo do processo de seleção. A Valore não tinha exposição direta à companhia antes de os problemas da varejista virem a público. Segundo ele, isso não ocorreu por antecipação, mas porque o papel já não atendia à relação entre risco e retorno considerada adequada. O ponto central, na avaliação dele, é verificar se a remuneração oferecida é compatível com os riscos assumidos.
A CVM alerta que alterações na condição financeira de uma companhia ou grupo, nas expectativas sobre seu desempenho e na capacidade competitiva do setor podem afetar adversamente o preço ou o rendimento dos ativos. risco de crédito em debêntures
Gustavo Carvalho, CIO e sócio-fundador da Stellar Capital, destaca a importância de a análise passar pelos fundamentos das companhias e pelas estruturas de crédito mesmo depois que o ativo entra na carteira. A Stellar chegou a reduzir de maneira considerável sua exposição à classe quando avaliou que os spreads haviam se comprimido. Na visão da casa naquele momento, a remuneração disponível já não justificava determinados riscos e prazos. como montar uma carteira de renda fixa