Por que Flávio Bolsonaro voltou a falar como Jair Bolsonaro
Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à presidência, mudou seu discurso para se alinhar mais ao estilo do pai, Jair Bolsonaro. Analistas comentam essa estratégia.
Por que Flávio Bolsonaro voltou a falar como Jair Bolsonaro
Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro (PL-SP), senador e pré-candidato à presidência, adotou um novo tom na sua comunicação de campanha. Após iniciar sua pré-campanha tentando se apresentar como uma versão mais moderada do pai, ele voltou a endurecer o discurso em temas importantes para o bolsonarismo, como urnas eletrônicas e o sistema eleitoral.
Para o cientista político Bruno Soller, sócio da Real Time Big Data, essa mudança é uma tentativa de conter a perda de apoio entre os eleitores mais fiéis ao ex-presidente Jair Bolsonaro, após uma série de crises enfrentadas pela campanha. "O Flávio começa uma campanha em que tenta se apresentar como algo maior do que o pai. Ele precisava ampliar o eleitorado. Surge o 'Bolsonaro equilibrado', ele mesmo dizia isso, tentando conquistar um público além da base bolsonarista", afirmou durante o programa Mapa de Risco, do InfoMoney.
Soller comentou que a estratégia começou a mostrar resultados, mas foi interrompida pelo caso envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos. "O problema todo é que tinha um Master no meio do caminho. Isso foi uma tragédia para a campanha. Ele começa a perder, inclusive, eleitor que se identificava com o bolsonarismo", disse.
Esse episódio trouxe de volta à campanha um discurso de combate à corrupção, que havia perdido força nos últimos anos, e que era um dos pilares da candidatura de Flávio. Ele comparou sua situação à de seu pai, afirmando que o "modus operandi é exatamente o mesmo".
"Quando o caso Master atinge o Supremo Tribunal Federal, ele dá um novo engajamento para esse voto anticorrupção. O Flávio era a representação desse eleitor. Quando ele passa a ser envolvido nesse sistema, perde parte desse apoio", explicou Soller.
Diante desse cenário, o endurecimento do discurso parece ser mais uma tentativa de impedir que sua base migre para outras candidaturas da direita, segundo Soller. "Agora me parece muito mais um freio de arrumação para conversar com esse eleitor que ele corre o risco de perder. Se ele começa a perder esse núcleo, pode surgir outra alternativa para ocupar esse espaço. Não é o cenário mais provável, mas é possível", avaliou.
A analista de política da XP, Bárbara Baião, também vê a campanha em um momento de reorganização. Ela destaca que a sucessão de episódios negativos impediu que Flávio consolidasse a imagem de candidato moderado que vinha sendo construída. "O que saiu do script foi o Banco Master, porque antecipou a projeção de um candidato que precisava falar de propostas e vestir um figurino que não era exatamente o seu", afirmou.
Baião ressalta que as dificuldades também surgem na tentativa de recuperar o eleitorado feminino, segmento onde o bolsonarismo enfrenta resistência. O pedido de desculpas feito por Flávio a Michelle Bolsonaro foi visto como mais um esforço para reduzir esse desgaste.
Por fim, Soller acredita que a campanha pode ainda buscar eleitores além do núcleo bolsonarista, mas neste momento, a prioridade parece ser outra. "Essa decisão de ser mais duro é para não perder o núcleo duro do voto, que é o voto bolsonarista raiz", concluiu.
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.