EUA podem imitar Brasil para domar dívida? Entenda
Com juros de 30 anos no maior nível desde 2007, os EUA estudam encurtar a dívida, prática comum no Brasil. Analistas veem riscos e ganhos limitados.
Os Estados Unidos podem precisar adotar uma prática comum em economias emergentes como o Brasil para domar a dívida: encurtar o perfil dos títulos públicos. Em 2021, os EUA voltaram a conviver com inflação alta pela primeira vez em quatro décadas, forçando o Federal Reserve a subir juros em ritmo acelerado. Cinco anos depois, Washington enfrenta outro problema típico de emergentes: financiar a dívida em prazos longos a um custo aceitável.
O rendimento do título americano de 30 anos atingiu em agosto o maior nível desde 2007. Em resposta, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dobrou para pelo menos US$ 4 bilhões por operação o programa de recompra de papéis longos. Os papéis de 30 anos reagiram de imediato, mas devolveram os ganhos no dia seguinte, mesmo após o discurso duro do presidente do Fed.
A próxima alavanca, segundo analistas, seria cortar a emissão de títulos com dez anos ou mais, com risco de redução nos leilões de 20 e 30 anos já em novembro. Na avaliação de Mark Cabana e Meghan Swiber, do Bank of America, o que está em jogo é o abandono do arcabouço "regular e previsível" que rege a gestão da dívida americana desde os anos 1980.
A pressão sobre as taxas longas torna relativamente mais atraente rolar a dívida na ponta curta. A necessidade é grande: os juros da dívida americana somaram perto de US$ 1,2 trilhão nos primeiros dez meses do ano fiscal, alta de 15% na comparação anual.
O encurtamento da dívida é comum no Brasil, onde o movimento está mais avançado. Metade da dívida pública federal está atrelada à Selic, e o Tesouro Nacional revisou o plano de financiamento para elevar a até 53% a fatia esperada desses títulos ao fim do ano. O mecanismo é diferente, pois no caso brasileiro o encurtamento vem da indexação, não do vencimento, mas o resultado converge: o governo perde a capacidade de travar o custo do endividamento por períodos longos.
As diferenças permanecem grandes: os EUA se financiam na moeda de reserva internacional e operam o mercado de títulos mais líquido do mundo, condições que o Brasil não tem. O Merrill Lynch Wealth Management, braço do BofA, lembra que o Japão também usou emissões curtas, reduzindo o déficit primário ao tomar emprestado a juros próximos de zero. O Merrill relativiza o alarme com a dívida: o número relevante não são os US$ 40 trilhões das manchetes, mas a dívida em poder do público, em torno de US$ 32 trilhões, cerca de 100% do PIB.
Os ganhos estimados são limitados. Um corte de cupons na escala do ciclo de 2021 e 2022 valeria cerca de 20 pontos-base no rendimento de dez anos até o fim de 2028; o cenário extremo, com o fim dos papéis de 20 e 30 anos, chegaria a 53 pontos-base, segundo o BofA. O prazo médio da dívida cairia de 68,8 para 66,7 meses até o encerramento do ano fiscal de 2028.
Precedentes históricos sugerem cautela: o Tesouro descontinuou o papel de 20 anos em 1986 e suspendeu o de 30 anos em 2001; nos dois episódios, a curva achatou, mas o juro de dez anos não caiu de forma duradoura. Cortar papel longo não reduz a necessidade de financiamento, com vencimentos de até US$ 323 bilhões em 2028, trocando risco de prazo por risco de refinanciamento.
Há poucas ferramentas à disposição do Fed. Segundo o professor Arvind Krishnamurthy, da Stanford Graduate School of Business, a fuga do investidor estrangeiro dos títulos americanos depreciaria a moeda em cerca de 7,6% e dispararia os rendimentos.
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