Panetone premium cai no gosto da Classe C e vira aposta da indústria
Com juros altos e endividamento em 82% das famílias, o brasileiro trocou volume por panetones recheados. Setor viu faturamento subir 3,5% em 2025, com Classe C respondendo por 48,6% das vendas.
O orçamento apertado mudou a relação do brasileiro com o panetone no Natal de 2025, e a indústria já desenha 2026 em cima dessa nova dinâmica. Com juros altos e endividamento que atinge 82% das famílias, o consumidor comprou menos volume, mas pagou mais caro por versões recheadas, transformando o item em substituto para presentes tradicionais.
O setor registrou retração de 3,4% no volume total, estacionando em 50 mil toneladas. O faturamento, porém, avançou 3,5%, com R$ 45,8 milhões adicionais, totalizando R$ 1,36 bilhão. Os números são da pesquisa Worldpanel by Numerator, encomendada pela Abimapi e apresentada no Salão do Panetone 2026.
Para David Fiss, diretor sênior de novos negócios da Worldpanel, a disparidade entre volume e faturamento é explicada pela "premiumnização". O panetone tradicional de chocolate encolheu 3,9% em volume, enquanto as versões recheadas cresceram 4,5%. O preço médio subiu 8,7%, indo a R$ 40,76, impulsionado pela migração para itens trufados, não por repasse linear de inflação. Nos custos, a indústria lidou com a disparada do chocolate e a dependência do óleo de palma importado.
Para proteger margens, o varejo focou em menor volume e maior valor agregado. As embalagens presenteáveis ganharam protagonismo e respondem por 33,1% do volume consumido, estável ante o ano anterior. A restrição de renda também alongou o intervalo entre idas ao ponto de venda, de cerca de 60 para 63 dias.
A sustentação do mercado vem do estrato médio: a Classe C responde por 48,6% do volume, seguida pela Classe A/B com 35,2%. Consumidores acima de 50 anos lideram por idade, com 41,7%. O núcleo "Panetone Lovers", apenas 20% dos compradores, consome 48% do volume, com gasto médio de R$ 83 na temporada.
A indústria também diluiu a sazonalidade: produtos chegam às gôndolas entre agosto e outubro, com crescimento em novembro e janeiro, este último focado nos "Ocasionais", que esperam promoções para comprar marcas premium com preços reduzidos.
Para 2026, a Abimapi projeta crescimento entre 3% e 5% no faturamento e no volume. O novo obstáculo, segundo Fiss, é o avanço acelerado das apostas esportivas online, que capturam a renda das famílias em cenário macroeconômico desafiador planejamento financeiro para PMEs.