GLP-1 nas redes: o que ninguém comenta, mas milhões assistem
Enquanto as redes exaltam a estética dos GLP-1, um estudo da Winnin com 233 mil vídeos mostra que o que mais se assiste são os efeitos que ninguém comenta: falta de energia e mau hálito. Os dados revelam a distância entre o que se posta e o que se consome.
O debate público sobre medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic e Wegovy, gira em torno da estética. Mas um estudo da consultoria Winnin, que analisou 233 mil vídeos com 6,7 bilhões de visualizações e mais de 300 milhões de interações nos últimos três anos, revela uma lacuna: o que as pessoas mais assistem não é o que mais comentam.
Nos recortes de engajamento, foram 7 milhões de interações, 224 milhões de visualizações e 10 mil vídeos. O tema mais publicado sobre efeitos colaterais é o envelhecimento da pele e perda de colágeno, com 23,3% do volume de conteúdo. Em seguida vêm perda de volume facial (14,5%), preservação muscular (14,3%), efeitos psicológicos (13,2%), platôs e efeito rebote (12,1%) e efeitos digestivos (10,6%). Falta de energia e mau hálito ocupam apenas 2,5% e 1,3% da produção.
Quando se mede o comportamento da audiência, o quadro muda. A falta de energia lidera as visualizações médias, com 77,9 mil views por conteúdo. O mau hálito vem em segundo, com 60,5 mil. O envelhecimento da pele, tema mais abordado, fica em terceiro, com 57,7 mil. No engajamento, o mau hálito também lidera, com cerca de 1,5 mil interações por publicação, à frente de padrões de beleza (1,44 mil), preservação muscular (1,42 mil) e envelhecimento da pele (1,41 mil).
Para a Winnin, a diferença indica que temas sensíveis atraem atenção, mas sem exposição pública. "O que mais envergonha não fica evidente só com o volume de interações. Se revela nas visualizações", afirma o relatório. Assistir a conteúdos sobre certos efeitos é uma forma de buscar informação sem compartilhar vulnerabilidades.
Outro dado: 40% das interações sobre GLP-1 já envolvem categorias como alimentos, beleza, moda, finanças e turismo. "O remédio virou cultura. E a cultura virou laboratório", resume o estudo. Cerca de metade das conversas já menciona benefícios além do diabetes tipo 2, como cardiovasculares (alta de 589%), saúde mental (387%), transtornos alimentares (375%), obesidade (310%), doenças metabólicas (275%), apneia do sono (210%) e questões estéticas (179%).
A pergunta que fica é quem paga a conta dessa ampliação de escopo. Os números mostram que o tratamento virou fenômeno cultural, mas os efeitos que mais geram audiência são os que menos aparecem nas publicações. Ozempic e o mercado de trabalho