Juristas veem 'promiscuidade' em relação de Moraes com Vorcaro
Mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes levantam suspeitas e justificam apuração, avaliam juristas. Reale Jr. cita 'promiscuidade entre poderosos e o poder'; Maierovitch defende afastamento cautelar.
As mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantam suspeitas sobre os limites da relação entre um integrante da Corte e um empresário investigado. Para juristas ouvidos pelo Estadão, o caso justifica uma apuração aprofundada dos fatos.
Para Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça, os diálogos revelam uma "promiscuidade entre poderosos e o poder" e podem envolver advocacia administrativa. Já o jurista e ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) Walter Maierovitch afirma que o caso também coloca em discussão a necessidade de um afastamento cautelar de Moraes enquanto os fatos são apurados.
Reale Jr. explica que a advocacia administrativa ocorre quando um funcionário público patrocina, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública valendo-se da condição que ocupa. "Isso é que choca", afirma. Para ele, a proximidade exposta pelas mensagens ultrapassa uma interlocução episódica. "O ministro atua de uma forma muito próxima, dando conselhos, fiscalizando ou revendo, fazendo uma revisão de contrato. Ou seja, tudo isto leva a uma descredibilidade da instituição junto à população."
O jurista defende que os fatos sejam formalmente apurados, seja por uma sindicância no próprio Supremo ou por uma investigação da Procuradoria-Geral da República. "Só se mantém o respeito às instituições se houver apuração." Maierovitch vai além: "Estou levantando a questão da necessidade do afastamento cautelar do Moraes."
A avaliação ocorre após a divulgação, pelo Estadão, de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro. Os diálogos mostram o banqueiro recorrendo a Moraes em momentos sensíveis da investigação sobre o Banco Master, inclusive para perguntar sobre possíveis medidas judiciais e consultar o ministro às vésperas de sua prisão. O material foi apreendido durante a Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, que investiga suspeitas de fraudes de aproximadamente R$ 12 bilhões em cessões de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB.
O relatório da PF, enviado ao ministro André Mendonça em 27 de agosto, identificou o contato "Alexandre de Moraes BRASILIA" no aparelho. O documento reconstrói uma relação que remonta ao fim de 2023 e vai além das mensagens sobre a investigação: a PF localizou registros de encontros e verificou que minutas do contrato firmado pelo banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes tiveram como responsável pela última modificação um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes".