Houthis do Iêmen aprendem a se armar sozinhos
Rebeldes Houthis do Iêmen ampliaram a fabricação própria de mísseis e drones, com apoio decrescente do Irã, e já testaram o uso de IA no desenvolvimento de armas guiadas, segundo relatório da Anthropic.
Os Houthis do Iêmen deixaram de ser apenas o grupo armado de picapes no deserto. O movimento lançou mísseis de longo alcance contra Israel, a mais de 1.600 quilômetros, e ataca o tráfego de navios no Mar Vermelho com drones navais. Evidências apontam para uma ambição crescente: usar inteligência artificial e meios próprios para produzir armamentos mais avançados, reduzindo a dependência dos patrocinadores no Irã.
A mudança importa para quem acompanha o custo do frete marítimo e o preço de produtos importados. O estreito de Bab el-Mandeb, na extremidade sul do Mar Vermelho, é rota obrigatória de boa parte do comércio entre Ásia e Europa. Quando o grupo aperta o controle sobre esse ponto, o efeito chega à cadeia logística global.
Em julho, os Houthis declararam bloqueio marítimo à Arábia Saudita. Desde então, marcharam para o sul, tomaram a cidade portuária de Mokha e capturaram ilhas próximas ao estreito. "Eles usam todas as oportunidades para construir sua capacidade, para testar sua capacidade, de modo que agora são o ator não estatal mais letal de todo o Oriente Médio", disse Timothy A. Lenderking, ex-enviado especial dos EUA para o Iêmen, em fórum do Middle East Institute.
Um relatório da Anthropic sobre uso indevido de IA apontou que "uma célula de agentes de ameaça baseada no norte do Iêmen" usou o Claude em "um esforço sustentado para desenvolver armas guiadas". Apesar das salvaguardas da empresa, a célula avançou até o teste de disparo de um foguete guiado. A Anthropic afirmou não ter evidências de sucesso em colocar um dispositivo operacional em campo.
O grupo ainda depende do Irã para os componentes mais sofisticados de drones e mísseis balísticos. Mas, segundo o relatório, tornou-se muito mais avançado na construção dos próprios sistemas. Peter Salisbury, professor adjunto da Universidade Columbia, disse que peças maiores, como chassis de mísseis, já são fabricadas em território controlado pelos Houthis, em vez de enviadas do Irã.
A trégua de 2022 deu tempo ao grupo "para se reagrupar, retreinar, reequipar, reabastecer", segundo Lenderking. Para o leitor que organiza o orçamento, a consequência prática é indireta e difusa: rotas marítimas mais tensas tendem a encarecer fretes e seguros, pressão que chega ao preço final de itens importados. Vale acompanhar custo do frete marítimo e preços no Brasil e como o câmbio afeta o orçamento familiar.