Copom corta Selic a 13,75%: eleições travam novos cortes?
O Copom cortou a Selic a 13,75% nesta quarta-feira (16), em decisão unânime e sem sinalizar os próximos passos. Analistas divergem entre novo corte e pausa, com eleição, El Niño e petróleo a US$ 100 no radar.
O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa básica de juros, a Selic, a 13,75% nesta quarta-feira (16), em decisão unânime e amplamente esperada pelo mercado. A autoridade monetária adotou tom de cautela e não sinalizou claramente os próximos passos, justificando que, dentro do horizonte relevante, a inflação está convergindo à meta, com projeção mantida em 3,2% para o primeiro trimestre de 2028. O patamar de 13,75% aparece nas estatísticas oficiais do Banco Central, e a taxa segue nesse nível nos registros diários seguintes.
A falta de um compromisso explícito, o chamado forward guidance, gerou interpretações divergentes entre analistas, divididos entre a continuidade gradual do ciclo de cortes e uma possível interrupção das quedas para garantir a convergência dos preços à meta.
O que a decisão muda para quem tem dívida ou investe
Na ponta do crédito, o alívio imediato para consumidores e empresários ainda é visto como distante. Fabrizio Gammino, co-CEO da Grownt, explica que a redução da Selic é apenas um alívio matemático. "O corte, por si só, ainda não devolve confiança, nem reabre o crédito para quem está endividado", alerta.
Para os investimentos, Ana Priscila Kologeski, consultora da Unicred Porto Alegre, ressalta que "com a Selic em trajetória de queda, mesmo que mais lenta, as taxas dos novos investimentos em renda fixa tendem a ficar menos atrativas com o tempo". O momento, segundo ela, exige revisar a carteira para travar taxas em prefixados e papéis atrelados à inflação.
Na economia real, o ritmo cadenciado do BC afeta setores intensivos em capital, como a construção. Alex Sales, fundador da Alumbra Empreendimentos, avalia que o corte diminui barreiras, mas o efeito nas vendas não é imediato. "A resposta mais forte do comprador deverá ocorrer à medida que o ciclo de redução dos juros ganhar continuidade", projeta, lembrando que os primeiros reflexos tendem a aparecer na estruturação financeira de novos projetos.
Por que os analistas divergem sobre o próximo passo
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que o Banco Central calibrou corretamente a decisão diante de um balanço de riscos assimétrico. "Em nosso cenário, entendemos que o corte de hoje é o último deste ano, muito por conta dos riscos no radar para o quarto trimestre e para o início do ano que vem", projeta. Ele ressalta a resiliência dos preços de serviços intensivos em mão de obra, que rodam a 7%.
Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, compartilha a visão de que a melhora recente da inflação se deve a fatores temporários. "Por isso, na nossa avaliação, o espaço para novos cortes na taxa de juros é praticamente inexistente", afirma.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, e Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, apontam que o aperto monetário global, com o Federal Reserve e o Banco Central Europeu elevando juros, deixa o Brasil com menos espaço para repetir reduções. José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, alerta que a desaceleração recente da inflação ocorreu por fatores que podem ser revertidos. "Algo que pode voltar nos próximos meses, devido ao El Niño mais intenso, ao mesmo tempo em que a guerra no Oriente Médio continua fazendo com que o preço do petróleo permaneça acima de 100 dólares/barril", explica.
Do outro lado, a XP Macro projeta que "o Copom continuará reduzindo a taxa básica de juros em 0,25 p.p. nas próximas reuniões", chegando a 13,25% ao fim de 2026. Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, ressalta que o Copom registrou que tanto a inflação cheia quanto os núcleos estão agora abaixo do teto. Felipe Queiroz, economista-chefe da APAS, argumenta que o país mantém um dos maiores juros reais do mundo, penalizando o setor produtivo, e que haveria espaço para cortes mais acentuados.
Eleição, câmbio e o compasso de espera
A decisão foi a última antes do pleito presidencial. Para parte do mercado, a falta de sinalização é estratégia deliberada diante das urnas. João Debom, sócio da Supernova Investimentos, aponta que o Copom evitou qualquer sinalização explícita sobre a reunião de novembro, que já ocorrerá com o resultado eleitoral definido. "Na prática, o Banco Central comprou tempo e flexibilidade num momento em que qualquer sinalização mais forte poderia ser lida como interferência no processo eleitoral", avalia.
Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, reforça a tese de que o mercado opera em compasso de espera. "Juro, bolsa e câmbio estão operando com um único tema doméstico: eleição", resume, ponderando que movimentos mais fortes do BC dependem de clareza na agenda fiscal do próximo mandato. Sung pontua que o calendário eleitoral pode gerar novas pressões sobre o câmbio.
Com a comunicação data-dependent adotada pelo Copom, as casas divergem sobre o patamar de encerramento da taxa em 2026. Parte ancorou as estimativas na mediana da pesquisa Focus, que projeta a Selic paralisada em 13,75% até o fim do ano, caso de instituições como Santander Brasil, C6 Bank, BV e Suno Research. A XP Macro projeta 13,25% no fim do ano, podendo atingir 11,50% em meados de 2027. Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital, prevê mais um corte de 0,25 ponto em novembro e manutenção em dezembro, com a Selic a 13,50% no fim do ano.