Cartões entram na corrida dos pagamentos por agentes de IA
Bandeiras como Mastercard, Visa e Elo dão os primeiros passos para intermediar pagamentos feitos por agentes de IA. Executivos citam incerteza sobre o cronograma e desafios de segurança antes da adoção em massa.
As bandeiras de cartão começam a se movimentar para não perder espaço na próxima era dos pagamentos digitais, dominada por agentes de inteligência artificial. Mastercard, Visa e Elo deram, nos últimos meses, os primeiros passos concretos para intermediar transações feitas de forma autônoma por máquinas.
O comércio agêntico promete mudar a jornada de compra: um assistente de IA compara preços, escolhe a melhor opção e conclui a transação sem intervenção humana. As operadoras de cartão querem ser a camada invisível dessa nova cadeia, mas executivos reconhecem que o caminho até a adoção em massa ainda é incerto.
Segundo o vice-presidente de tecnologia da Elo, Eduardo Merighi, a autonomia total, em que o consumidor só percebe a compra quando o produto chega em casa, ainda vai levar tempo. Ele cita questões culturais, necessidade de construir confiança e desafios de segurança como barreiras.
Historicamente, mudanças na adquirência demoram cerca de uma década para atingir escala global, lembra o diretor digital da Mastercard, Pablo Fourez. A tarja magnética, por exemplo, só substituiu as máquinas manuais em meados dos anos 80, dez anos depois de a tecnologia ser desenvolvida. Mas a IA parece encurtar prazos: ChatGPT, Gemini e Claude, que nem existiam há quatro anos, já transformaram a experiência digital.
Fourez projeta que a disseminação da tecnologia agêntica deve ficar no meio entre os dois extremos. "As ferramentas estão aprendendo muito rápido e o momento de investir é agora", afirma.
O potencial do mercado explica a pressa. O comércio por agentes de IA para consumidores (B2C) deve movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente até 2030, segundo estudo da consultoria McKinsey & Company. O sucesso do Pix posiciona o Brasil como um dos mercados mais promissores para a nova tecnologia, avaliam executivos.
A Elo, coontrolada por Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal, expandiu para 5 mil clientes um agente de IA em parceria com a Decolar. A ferramenta realiza toda a jornada de compra de passagens aéreas, da busca à transação, integrada a canais como WhatsApp. O usuário ainda precisa intervir apenas na etapa final de confirmação.
Visa e Mastercard fizeram, em março, os primeiros testes no Brasil de transações em tempo real de pagamentos agênticos. A Visa trouxe ao país um programa para certificar emissores e credenciadores, atualizando sistemas existentes, como APIs de tokenização e autenticação biométrica. Em junho, anunciou parceria com a OpenAI para habilitar o comércio agêntico, primeiro nos EUA. "Ainda não sabemos quando virá para o Brasil, mas estamos nos preparando tecnologicamente para recebê-la", afirma o diretor-executivo de soluções para pagamentos digitais da Visa, Leandro Garcia.
A Mastercard concentra esforços no Agent Pay, infraestrutura para dar segurança e autenticação ao comércio agêntico. A bandeira estendeu o conceito ao Agent Pay For Machines, que permite pagamentos corporativos autônomos conforme orçamentos pré-definidos, e anunciou uma solução para adaptar sites de lojistas à leitura por agentes.
Para o empresário de PME, o movimento indica que a automação de compras deixará de ser novidade e virará exigência competitiva. Quem vende online precisa se preparar para ser encontrado e processado por máquinas, não só por humanos. O caixa que hoje depende de cliques pode, em poucos anos, depender de algoritmos.