Credito e Dividas

IA na duplicata escritural promete acelerar crédito às empresas

ResumoA duplicata escritural com inteligência artificial (IA) automatiza a validação de recebíveis e a análise de risco, reduzindo o ciclo de concessão de crédito empresarial de dias para horas. A tecnologia processa dados documentais e transacionais em tempo real, permitindo decisões de funding mais rápidas e seguras. A IA atua na detecção de fraudes e na precificação dinâmica, sem substituir a governança humana.

Sistema de duplicata escritural ganha camada de IA para acelerar a transformação de recebíveis em crédito. Entenda a tecnologia por trás do hype.

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 07 de setembro de 2026
IA na duplicata escritural promete acelerar crédito às empresas

O sistema de duplicata escritural mal começou a operar e já ganhou uma camada de inteligência artificial para acelerar a transformação de recebíveis em crédito. Em menos de dois meses, ferramentas de IA passaram a analisar milhões de dados gerados pelos títulos para identificar operações fora do padrão e estimar a capacidade de pagamento das empresas. A promessa é destravar um mercado que movimenta entre R$ 10 trilhões e R$ 13 trilhões por ano, mas a gente separa a tecnologia do hype.

A fintech Delend afirma ter treinado um modelo de IA com mais de 30 milhões de títulos emitidos por pequenas e médias empresas, equivalentes a cerca de R$ 80 bilhões em valor de face. Em testes internos, o sistema alcançou taxa de acerto de 97,7% na previsão do comportamento de pagamento, segundo a companhia. O resultado, porém, merece ceticismo: trata-se de métrica produzida pela própria empresa, sem validação independente pelo mercado.

Há também uma limitação temporal. Como o novo ecossistema entrou em operação apenas em julho, o treinamento foi feito principalmente com histórico de boletos, notas fiscais e outros recebíveis, não com dados gerados dentro do próprio sistema ao longo de anos. Ou seja, a base ainda não reflete a realidade da duplicata escritural.

Ainda assim, a iniciativa ilustra o próximo estágio do mercado. Se a primeira fase consiste em criar um título digital, único e rastreável, a seguinte será usar esse volume de informações para aprimorar a análise de risco e definir quem terá acesso ao crédito, em que volume e a qual custo. A escrituração comprova a existência do título, mas não responde se o sacado honrará o pagamento.

Segundo Fernando Wosniak Steler, cofundador e CEO da Delend, esse sempre foi um dos principais entraves do crédito no Brasil. "Existe um gap de crédito não atendido de R$ 2,5 trilhões apenas entre pequenas empresas. Nosso modelo aprende com a linguagem transacional de duplicatas, notas fiscais, vencimentos, pagamentos e atrasos para prever esse risco e viabilizar a antecipação de crédito", afirma. A tecnologia cruza histórico de pagamentos, atrasos, recorrência das relações comerciais, dados de ERP e informações do Open Finance.

A proposta ganha relevância para pequenas empresas, que muitas vezes têm histórico bancário limitado. Em vez de olhar apenas para balanços, a IA tenta interpretar o comportamento real das operações. A velocidade também muda: análises que levam dias poderão ser incorporadas ao fluxo da operação, indicando, no momento da emissão de uma nota fiscal, se vale vender a prazo, manter o recebível ou antecipá-lo. "Tudo em tempo real", diz Steler.

Lançada em 30 de junho pelo Banco Central, a duplicata escritural é aposta para ampliar o acesso ao crédito, com expectativa de destravar mais de R$ 11 trilhões. Pesquisa da Núclea, com IBPad e Môre, mostra que 88% das instituições acreditam na ampliação da oferta. Para Everson Menezes, CTO e COO da CERC, mais de 600 milhões de duplicatas poderão ser administradas na fase de obrigatoriedade. Edson Silva, presidente da Nexxera, vê potencial para um "rating dinâmico" das empresas. Entender a tecnologia por baixo disso te protege do golpe: a IA não elimina o risco de inadimplência, apenas o mede melhor.

Leia também

Publicidade