# Tarifaço deve ter efeito limitado na balança comercial brasileira, dizem especialistas

> O tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve ter efeito limitado na balança comercial do Brasil, conforme especialistas. A medida atinge apenas 18% das exportações nacionais para os EUA, com impactos concentrados em setores como máquinas, aço e calçados.

*Global Forum · Economia · 20 de julho de 2026 · Aisha Mbeki*

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar efeitos limitados na balança comercial do Brasil, mas setores como máquinas, aço e calçados sentirão o impacto. Medidas afetam apenas 18% das exportações nacionais para os EUA.

Os Estados Unidos impuseram novas tarifas sobre produtos brasileiros, mas o impacto agregado na balança comercial do Brasil deve ser restrito. As medidas, baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado americano, segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil. Ainda assim, setores industriais específicos sentirão perdas de competitividade.

**O que muda na balança comercial?**

No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou déficit comercial de US$ 1,5 bilhão com os Estados Unidos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). As trocas bilaterais somaram US$ 36,4 bilhões no período, queda de 12,8% em relação ao mesmo intervalo de 2025. As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões.

Em junho, as exportações cresceram 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, mas o resultado foi sustentado pela alta de 11% nos preços médios. O volume embarcado caiu 6,6%.

**Por que o efeito é limitado?**

Pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls afirma que o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira. "Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%", diz.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também descarta um efeito relevante sobre o superávit comercial. "O superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities [bens primários com cotação internacional]. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes", explica.

**Setores mais afetados**

Entre os segmentos que sofrerão mais com perdas de competitividade estão máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis. Embora a alíquota-padrão seja 25%, em 24% dos produtos atingidos a taxa chega a 50%, pois o tarifaço somou-se a tarifas impostas anteriormente pelos Estados Unidos.

Já aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

**Impacto na indústria nacional**

Para José Augusto de Castro, o maior prejuízo será para a indústria nacional, responsável pela produção de bens de maior valor agregado. "Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil."

Castro afirma que as novas barreiras tendem a favorecer concorrentes internacionais. "Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço."

Lia Valls acrescenta que os efeitos devem ser sentidos principalmente por empresas e setores industriais mais dependentes do mercado americano. "Você pode ter efeitos mais microeconômicos sobre empresas, principalmente dos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados", enumera.

**Contexto político das tarifas**

Na avaliação de Lia Valls, a escalada das tarifas deixou de seguir critérios econômicos e passou a incorporar argumentos políticos. Principalmente porque, diferentemente da maioria dos países, o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. "Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história", diz.

Segundo a economista, temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser utilizados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.

**Retaliação: riscos e limites**

O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço americano. Os especialistas, porém, veem poucos benefícios em uma retaliação.

Lia Valls avalia que o Brasil não dispõe de capacidade para impor perdas relevantes aos Estados Unidos. "O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno. O caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio", sugere.

José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária tende a ser ineficaz. "Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la", adverte.

**Perguntas Frequentes**

### O tarifaço afeta todos os produtos brasileiros?

Não. As medidas afetam apenas 18% das exportações nacionais para os EUA. Aeronaves, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

### Qual o impacto na balança comercial brasileira?

O efeito no saldo agregado é limitado, segundo especialistas, pois os EUA respondem por cerca de 9,4% das exportações brasileiras. O maior impacto é setorial, sobre a indústria.

### Quais setores são mais prejudicados?

Máquinas, aço, alumínio, calçados, automóveis e produtos de madeira estão entre os mais afetados. Em 24% dos produtos, a alíquota chega a 50%.

### O Brasil deve retaliar?

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a retaliação tende a ser ineficaz. O Brasil não teria capacidade de impor danos relevantes aos EUA, e o caminho seria levar o caso à OMC.

### Por que as tarifas foram impostas?

As tarifas foram baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo Lia Valls, argumentos políticos, como decisões do STF e regulamentação de plataformas digitais, passaram a justificar as sanções.

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Fonte (canonical): https://globalforum.com.br/economia/tarifaco-deve-ter-efeito-limitado-balanca-comercial-brasileira/
