Economia

Tarifa dos EUA terá efeito limitado sobre etanol brasileiro, avaliam especialistas

ResumoA tarifa adicional de 25% dos EUA sobre o etanol brasileiro terá efeito limitado, pois menos de 16% do volume exportado pelo Brasil destina-se ao mercado norte-americano. Especialistas destacam vantagens competitivas do etanol brasileiro e a necessidade de buscar novos parceiros comerciais para mitigar impactos.

A tarifa adicional de 25% dos EUA sobre o etanol brasileiro deve ter impacto limitado, já que menos de 16% do volume exportado vai para o mercado norte-americano. Especialistas apontam vantagens competitivas do Brasil e necessidade de buscar novos parceiros.

Tânia Lustosa
Tânia Lustosa Colunista de economia e sociedade · 22 de julho de 2026
Tarifa dos EUA terá efeito limitado sobre etanol brasileiro, avaliam especialistas

A tarifa adicional de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro deve provocar impactos pontuais sobre empresas exportadoras, mas esse efeito tende a ser limitado sobre o conjunto da economia brasileira. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a medida tem forte componente político e ocorre em um momento quando o mercado norte-americano responde por menos de 16% do volume de etanol exportado pelo país.

A maior parte das vendas externas é destinada a outros compradores internacionais, embora os EUA sejam atualmente o segundo principal destino do etanol brasileiro. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol (cada metro cúbico equivale a mil litros), o que correspondeu a uma receita de quase US$ 1 bilhão. No mesmo período, os embarques para o mercado norte-americano somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões.

Por que a tarifa dos EUA sobre o etanol brasileiro é limitada?

"A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno", contextualiza o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume exportado pelo Brasil e por cerca de 17,5% da receita obtida com as vendas externas do biocombustível.

Resumindo: mais de 84% do volume de etanol exportado (cerca de 82,5% do faturamento das exportações) tiveram como destino outros mercados internacionais. Para Delorme, o mais provável é o Brasil fazer o que já vinha fazendo: buscar mercados alternativos para o etanol produzido no país.

Impacto político e imprevisibilidade comercial

Na avaliação do especialista em economia e comércio internacional, são pequenas as chances de essa tendência de tarifação ser revertida. "Claro que é algo ruim, em especial para alguns setores específicos. Mas, verdade seja dita, não representa nenhuma tragédia para a economia do país", acrescentou.

A busca por outros mercados - e a ajuda do poder público para essa busca - é algo cada vez mais necessário neste cenário de imprevisibilidades do governo de Donald Trump. "Claro que ninguém gosta de perder um mercado como o dos Estados Unidos, mas, nas circunstâncias atuais, pelo menos durante a atual administração estadunidense, esse mercado se tornou muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade", argumentou o professor da UFRJ.

Segundo Delorme, fazer investimentos voltados especificamente para atender esse mercado é, atualmente, algo extremamente arriscado, motivo pelo qual o Brasil precisa buscar parcerias mais confiáveis. "Não há garantias de que seja possível estabelecer políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis com os EUA porque o que move o tarifaço não são ganhos de natureza comercial, mas a agenda política do governo deles para a América Latina", acrescentou.

Vantagens competitivas do Brasil na produção de etanol

Segundo pesquisadores, a competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro representa vantagem na busca por mercados alternativos. Professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), Luis Augusto Barbosa Cortez explica que fatores como clima e solo ajudam significativamente o Brasil.

Ele lembra que os EUA produzem etanol basicamente a partir do milho. Já o Brasil, que sempre produziu a partir da cana-de-açúcar, passou, mais recentemente, a produzir também a partir do milho. "E a tendência é de que a participação do milho na produção fique ainda maior", afirma o coordenador do CCD Etanol.

Atualmente, cerca de 75% do etanol produzido no Brasil tem origem na cana-de-açúcar, enquanto os 25% restantes são produzidos a partir do milho. A expectativa é que a participação do milho alcance cerca de 30% da produção nacional até 2030 e que, por volta de 2050, possa se igualar à participação da cana no setor.

Eficiência produtiva e dupla safra

Cortez explica que o clima brasileiro possibilita a produção de milho em uma segunda safra, algo que ocorre em escala muito menor nos EUA, uma vez que boa parte da área cultivada encontra-se em regiões que vivem as limitações climáticas de um inverno mais rigoroso. "O produtor brasileiro pode colher soja até o mês de maio e, na sequência, plantar milho para colheita em outubro. Dessa forma, uma mesma área pode produzir duas safras por ano", detalhou.

Na produção a partir da cana, há também a questão da produtividade, que é maior do que a obtida a partir do milho. O Brasil produz aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare de cana plantada. Nos Estados Unidos, a produtividade chega, no máximo, a 5 mil litros.

Integração com pecuária e energia renovável

Cortez explica que um dos motivos para o aumento da produção de etanol de milho está associado à integração entre agricultura e pecuária, o que torna o setor ainda mais competitivo na corrida pelo mercado internacional. "Produzir etanol de milho no Brasil está se tornando cada vez mais vantajoso. A atividade pode ser integrada à pecuária porque seu farelo serve de insumo para alimentação animal. Essa integração também traz ganhos ambientais, já que reduz a necessidade de áreas de pastagem", acrescentou.

O especialista destaca também vantagens no processo industrial, uma vez que, no Brasil, parte da energia utilizada nas usinas é gerada a partir da biomassa do bagaço, tanto da cana como do milho, o que reduz ainda mais os custos de produção. "Nos Estados Unidos, eles precisam comprar energia para parte do processo de produção do etanol. No Brasil, resolvemos isso dentro da própria usina. Por isso o custo deles é maior".

Análise política da tarifa dos EUA

Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard avalia que as medidas adotadas pelos EUA contra o Brasil têm "caráter eminentemente político", apesar de apresentarem uma "maquiagem técnica".

"A administração Trump, diante da guinada para governos de extrema direita na América Latina, deixou de tratar a questão tarifária de forma técnica, como havia sido a abordagem do governo brasileiro, e embarcou em uma postura de tentar manipular os desdobramentos políticos no Brasil por meio de pressão econômica externa", argumentou.

Para Soendergaard, do ponto de vista técnico, a argumentação dos EUA não procede. "O Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a queda das importações de etanol dos EUA deve-se ao aumento da produção de etanol baseado em milho no Brasil". Ele explica ser perceptível que o governo Trump faça afirmações "parciais ou inteiramente divorciadas dos fatos concretos" para pressionar outros países.

Os Estados Unidos justificam a imposição de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros com base em investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), segundo a qual determinadas práticas adotadas pelo Brasil seriam discriminatórias ou prejudicariam a economia norte-americana. Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras relacionadas ao comércio digital e aos sistemas de pagamento eletrônico, questões de propriedade intelectual, medidas anticorrupção e o desmatamento ilegal.

O governo brasileiro rejeita essas alegações e afirma que a investigação não tem respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional. A tarifação recebeu críticas das entidades representativas tanto dos produtores de etanol a partir da cana como do milho. Segundo a Unica, ao contrário do que os EUA alegam, "a [práticas brasileiras estão em conformidade com as regras da OMC".

Perguntas Frequentes

A tarifa dos EUA vai afetar o preço do etanol no Brasil?

Não há indicativo de impacto direto nos preços internos, já que a maior parte da produção é destinada ao mercado doméstico e os EUA representam menos de 16% das exportações.

O Brasil pode retaliar os EUA?

O governo brasileiro rejeita as alegações da investigação do USTR, mas a fonte não menciona medidas de retaliação específicas até o momento.

O etanol de milho brasileiro é competitivo?

Sim. O Brasil produz etanol de milho com vantagens como segunda safra, integração com pecuária e uso de biomassa para energia, reduzindo custos.

Quanto o Brasil exportou de etanol em 2025?

Foram cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos, gerando receita de quase US$ 1 bilhão, segundo dados da Unica.

Por que os EUA impuseram a tarifa?

Os EUA alegam práticas discriminatórias do Brasil, mas especialistas apontam motivação política, sem respaldo técnico nas regras da OMC.

impacto tarifas EUA Brasil competitividade etanol brasileiro

Leia também

Publicidade