Risco de restrição pontual de diesel volta ao radar com defasagem da Petrobras
Com o diesel internacional em alta e a defasagem da Petrobras em nível recorde, importadores adiam compras e cresce o temor de restrições pontuais de oferta em outubro, justamente no pico do plantio da safra de verão.
A nova escalada do diesel no mercado internacional ampliou para níveis recordes a defasagem em relação aos preços praticados pela Petrobras no Brasil, segundo executivos do setor de distribuição e importação. O efeito imediato: importadores adiam decisões de compra e crescem as preocupações com restrições localizadas de oferta e distorções regionais.
O que está em jogo, em resumo:
- A defasagem do diesel da Petrobras ficou em R$3,89/litro abaixo do mercado internacional na terça-feira, patamar recorde segundo a Abicom.
- Importadores independentes perdem atratividade econômica e adiam compras.
- Outubro tem pico sazonal de consumo, no plantio da safra de verão.
- Cerca de 30% do mercado brasileiro de diesel é atendido por importações.
- Agentes descartam desabastecimento sistêmico, mas veem mercado mais apertado.
Para outubro, estão previstas importações de 120 mil metros cúbicos (m³) de diesel, sendo cerca de 75% pela Petrobras, segundo o line up da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Em setembro, a Abicom estima 870 mil m³ programados, dos quais 40% pela Petrobras, volume próximo do total usualmente importado nesta época, de pouco mais de 1 milhão m³.
A programação de embarcações, porém, retrata o momento e pode mudar, ponderaram especialistas. "A demanda de outubro normalmente é maior do que a de setembro, e as refinarias não vão produzir mais em outubro do que produziram em setembro, porque já estão operando perto do limite máximo", disse o presidente da Abicom, Sérgio Araujo.
Ele alertou para o risco de um navio previsto para a última semana de setembro não chegar, já que o mercado internacional paga mais caro pelo diesel. Estar no line up não impede que a carga seja desviada para regiões com lances mais altos.
O Brent fechou acima de US$108 o barril na terça-feira, alta de US$3,07 ante a sessão anterior e acima dos cerca de US$93 do início do mês. Os futuros de diesel nos EUA fecharam em nível recorde. A Petrobras mantém preços estáveis enquanto participa de programa de subvenção do governo federal, em ano de eleição presidencial.
Procurada, a petroleira afirmou que prevê importações compatíveis com a demanda para setembro e outubro, considerando a sazonalidade, e que cumpre integralmente suas obrigações junto às distribuidoras. A companhia observou que o mercado também é atendido por distribuidores, importadores e outros produtores.
A Farsul notificou a ANP sobre "profunda preocupação com os novos relatos de restrições e atrasos na entrega de óleo diesel aos produtores rurais gaúchos", no início do plantio da safra de verão. A ANP disse que, em contatos com a Petrobras e distribuidores do Rio Grande do Sul, as entregas ocorrem normalmente e não identificou risco de desabastecimento no Estado.
Uma fonte do setor de distribuição relatou que clientes do Paraná e de Santa Catarina estariam indo ao Sul buscar diesel mais barato. O especialista da StoneX Bruno Cordeiro destacou que o Brasil reconstruiu estoques ao longo do ano e tem capacidade de passar por crises via queima de estoques. "É um cenário apertado, mas não há preocupação com um desabastecimento amplo", disse.
A pergunta que fica é quem absorve o custo dessa defasagem. Enquanto a Petrobras segura os preços, o risco recai sobre importadores independentes e, em última instância, sobre quem depende do diesel para plantar, transportar e produzir. preços de combustíveis e subvenção