Economia

Polônia escândalo petróleo Venezuela e criptomoedas

ResumoOrlen Trading Switzerland, subsidiária da polonesa Orlen, teria usado criptomoedas USDT para comprar petróleo venezuelano, conforme reportagem do Financial Times. A operação pode ter causado prejuízo de aproximadamente US$ 440 milhões, e quase nenhum barril chegou às refinarias, segundo a apuração.

Reportagem do Financial Times detalha esquema da Orlen Trading Switzerland para comprar petróleo venezuelano com pagamentos em USDT. A negociação pode ter gerado prejuízo de cerca de US$ 440 milhões e quase nenhum barril chegou às refinarias.

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 15 de setembro de 2026
Polônia escândalo petróleo Venezuela e criptomoedas

O novo governo da Polônia, que assumiu após as eleições de 2023, decidiu examinar com lupa a gestão de empresas estatais e as atividades dos executivos nomeados sob a gestão anterior. Foi nesse pente-fino que apareceu um escândalo envolvendo a Orlen Trading Switzerland (OTS) na compra de petróleo da Venezuela. O caso foi detalhado nesta terça-feira (15) em reportagem do Financial Times.

Segundo o jornal britânico, a negociata pode ter gerado um prejuízo de cerca de US$ 440 milhões. E quase nenhum petróleo bruto chegou às refinarias da Orlen.

Aqui, a gente separa a tecnologia do hype. O que o FT descreve não é uma falha da blockchain, mas uma falha de governança corporativa. A criptomoeda foi o meio, não a causa. Entender essa diferença protege o leitor de confundir inovação com irresponsabilidade.

O jornal aponta que uma das maiores falhas de governança de um grupo europeu de energia começou com uma conversa no final de 2023 em um iate em Abu Dhabi, durante o GP da Fórmula 1. O executivo Samer Awad, que liderava o braço de trading suíço da Orlen, teria pedido ao trader Kam Ho "Alex" Tse, fundador da Hannon International, sediada em Dubai: "Vá e consiga petróleo venezuelano para mim."

O que se seguiu, segundo o FT, virou uma disputa de commodities envolvendo centenas de milhões de dólares, somas de criptomoeda trocadas em pendrives em restaurantes de Caracas e, no fim, muito pouco petróleo venezuelano.

Awad queria aproveitar a janela do afrouxamento temporário das sanções dos EUA à indústria petrolífera venezuelana para comprar cerca de seis milhões de barris, no valor de cerca de US$ 345 milhões. Em outubro de 2023, Washington flexibilizou as sanções por seis meses, na esperança de que Nicolás Maduro permitisse eleições democráticas no país.

Como desde 2019 estava difícil comprar petróleo venezuelano, a estatal PDVSA passou a exigir pagamentos antecipados em USDT, criptomoeda da Tether atrelada ao dólar. Essa moeda podia transitar por blockchains públicas fora do sistema bancário convencional, o que permitia à Venezuela driblar as sanções.

A investigação do FT, baseada em documentos internos, dados de navegação, análise de blockchain, registros judiciais e entrevistas, mostra como a corrida por petróleo e criptomoeda se tornou um dos maiores escândalos corporativos da história da Polônia.

A OTS assinou no final de 2023 um contrato para comprar cerca de 6 milhões de barris da Merey 16, da Hannon, por US$ 345 milhões. A OTS esperava lucro de cerca de US$ 25 a US$ 30 milhões. A Orlen disse que "obrigações de confidencialidade" a proibiam de comentar o contrato.

O contrato exigia pagamento adiantado de dois terços do total, e a empresa polonesa transferiu US$ 230 milhões à Hannon. O trader Tse buscou ajuda do italiano Vitonicola Mariano, que se apresentava como "um agente nomeado da PDVSA" e administrava a Lexcor Energy.

Tse passou a obter USDT para pagar pelo petróleo, usando empresas e tradings em Dubai. Mas esse dinheiro nunca chegou à PDVSA.

Enquanto o dinheiro circulava por Dubai, três superpetroleiros fretados pela Orlen chegaram à Venezuela em meados de dezembro, na esperança de que os 6 milhões de barris chegassem em três etapas até 19 de dezembro. Os petroleiros ficaram vazios por semanas, enquanto a Orlen acumulava taxas portuárias.

Tse decidiu ir a Caracas levando pendrives com USDT e contratou carro blindado e seguranças "por medo de sequestro". Em janeiro de 2024, encontrou outro intermediário, José Castillo, da Synergy, que teria recebido mais de US$ 100 milhões em USDT. Em fevereiro, entregaram mais um pendrive com US$ 11 milhões a Juan Rodríguez, da Consulting Services.

Só em março de 2024 um navio fretado pela Orlen carregou cerca de 500 mil barris de óleo combustível no porto de José, metade do esperado. Em março, a Orlen rescindiu o contrato. O governo polonês estimou perdas de pelo menos 1,6 bilhão de zlotys, cerca de US$ 424 milhões, atribuídas à má gestão. Mais de dois anos depois, a Orlen ainda tenta recuperar os US$ 230 milhões adiantados à Hannon. A disputa está em arbitragem, e a Hannon disse que não tem nem perto desses fundos.

Leia também

Publicidade