Economia

Pílula de R$ 2,4 mi por ano: novo normal dos preços de remédios contra câncer

ResumoA Revolution Medicines precificou o medicamento contra câncer de pâncreas em US$ 480 mil (R$ 2,4 milhões) por ano, valor que reflete o novo patamar de custos terapêuticos oncológicos. O mercado farmacêutico absorve essa cifra como padrão emergente, pressionando pacientes e planos de saúde a reavaliar orçamentos e coberturas. A precificação estabelece precedente para futuros lançamentos de alta complexidade.

A Revolution Medicines definiu o preço de US$ 480 mil (R$ 2,4 mi) por ano para seu remédio contra câncer de pâncreas. Entenda como o mercado absorveu valores que antes eram inimagináveis e o que isso significa para pacientes e planos.

Fábio Quaresma
Fábio Quaresma Especialista em finanças pessoais · 01 de setembro de 2026
Pílula de R$ 2,4 mi por ano: novo normal dos preços de remédios contra câncer

Quem convive com câncer de pâncreas avançado conhece a conta que vem junto com o tratamento. Agora, uma pílula diária pode custar o equivalente a R$ 2,4 milhões por ano. A Revolution Medicines definiu o preço de tabela de US$ 480 mil anuais, ou US$ 663 por comprimido, para o Rasonque, seu novo medicamento contra a doença. O valor, que há duas décadas seria inimaginável, hoje integra um padrão: preços altos se tornaram comuns entre os remédios oncológicos.

Uma terapia CAR-T chega a US$ 600 mil por infusão única. Outra, similar, custa US$ 550 mil. Um comprimido diário para câncer gastrointestinal sai por US$ 520 mil ao ano. E um remédio contra leucemia, tomado duas vezes ao dia, custa US$ 430 mil anuais. Somente em 2024, nove medicamentos contra o câncer foram aprovados e lançados nos Estados Unidos com preços acima de US$ 400 mil por ano, segundo o Institute for Clinical and Economic Review (ICER).

O que mudou? Há vinte anos, a possibilidade de um remédio contra câncer custar US$ 100 mil anuais já gerava críticas fortes. Desde então, os preços subiram de forma constante, limitados apenas pelo que as empresas acreditam que o mercado aceita pagar. A conta é dividida entre programas governamentais, como o Medicare, empregadores, pacientes e contribuintes.

O Rasonque, também chamado de daraxonrasibe, é tomado em dois comprimidos por dia. Não é uma cura, mas prolonga a vida: no estudo clínico principal, pacientes com câncer de pâncreas avançado tiveram sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses com quimioterapia. Brian Crawford, porta-voz da Revolution Medicines, diz que o preço "reflete sua diferenciação e o benefício significativo que proporciona aos pacientes". Pessoas sem seguro ou com cobertura insuficiente, que atendam a critérios financeiros e médicos, receberão o medicamento gratuitamente.

Stacie Dusetzina, professora de política de saúde da Universidade Vanderbilt, reconhece o benefício clínico, mas pondera: "É difícil dizer se o preço é justo". Aaron Kesselheim, de Harvard, é mais direto: "Permitimos que as empresas farmacêuticas cobrem o que quiserem, sem uma justificativa clara além de quanto elas acreditam que conseguem cobrar". O preço de tabela, lembre-se, é só o ponto de partida: para oncologia, o valor final pago costuma ficar pouco abaixo do tabelado.

A Revolution Medicines acumula US$ 4 bilhões em prejuízos desde 2014, sendo US$ 3,3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. A aposta no Rasonque elevou seu valor de mercado a US$ 45 bilhões. Mais de 2 mil pacientes já tiveram acesso antecipado e gratuito ao remédio. Agora, a cobertura depende dos planos de saúde, com avaliação em curso pela Caremark, da CVS Health, e pela Optum Rx, da UnitedHealth Group.

Para quem vive o aperto de um diagnóstico de câncer, a notícia é dupla: há um tratamento que prolonga a vida, mas o preço levanta a pergunta que fica sem resposta fácil: até onde o sistema aguenta?

Leia também

Publicidade