# Os misteriosos recados em persa antigo, latim e chinês no Rio

> As inscrições em persa antigo, latim e chinês no Rio de Janeiro, como a frase decifrada no Theatro Municipal após 117 anos, revelam mensagens históricas e culturais enigmáticas. Pesquisadores identificaram recados que conectam o Brasil a tradições globais, despertando curiosidade sobre o significado desses registros arquitetônicos.

*Global Forum · Economia · 27 de julho de 2026 · Marcelo Iorio*

No Rio, inscrições em persa antigo, latim e chinês intrigam há décadas. Pesquisadores decifraram uma frase no Theatro Municipal após 117 anos. Veja o que esses recados revelam.

O espaço urbano do Rio de Janeiro se comunica por inscrições que, para a maioria, são enigmas. Em persa antigo, latim e até chinês, esses textos em fachadas e monumentos guardam mensagens que só agora começam a ser reveladas. Uma frase gravada no Salão Assyrio do Theatro Municipal em 1909 ficou sem tradução por 117 anos, até que dois pesquisadores decifraram seu significado.

A história começa quando Alex Mazzanti Junior, professor de Língua e Literatura Latina da UFRJ, levou a mãe a uma visita guiada ao Municipal. Ao ver a inscrição em sistema cuneiforme, reconheceu o persa antigo. Sem registro do significado no acervo do teatro, levou o "enigma" ao colega Matheus Treuk, professor de Arqueologia da Antiguidade da Uerj. Em abril, publicaram o artigo revelando a frase: "Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario"., A menção é a um grande salão (o Apadana) que tinha referência ao rei Artaxerxes II, filho de Dario II. Não corresponde literalmente a uma inscrição antiga descoberta. O que parece ter acontecido é que os responsáveis pela decoração compuseram um novo texto a partir de elementos conhecidos da escrita persa antiga, explica Matheus Treuk, que também atua no Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA-Uerj).

A repercussão surpreendeu os pesquisadores. Alex Mazzanti Junior, membro do Grupo de Estudos de Línguas Indo-Europeias Antigas (GELIEA), diz que o mais importante é aproveitar o momento para divulgação científica: "É uma oportunidade de mostrar um pouco do trabalho que produzimos na universidade pública e aproximar esse conhecimento da sociedade".

Esse não é o único texto em persa antigo do Rio. Em São Cristóvão, na Praça Pedro II, a base da Coluna de Persépolis, presente do Irã à cidade por ocasião da Rio+20, em 2012, traz inscrição cuneiforme, com versões em português e inglês ao lado. "Essa é uma cópia fidedigna do texto que está na tumba do rei Dario I", explica Treuk.

Na babel carioca, há muitos outros exemplos. Boa parte está em latim. Uma das mais visíveis fica na Avenida Presidente Vargas, nº 2.610, na fachada da antiga fábrica de gás que, em 1853, modernizou a iluminação pública do Rio. A inscrição "Ex Fumo Dare Lucem", verso da Arte Poética, de Horácio (65-8 a.C.), significa "a luz a partir da fumaça", metáfora do processo de mudança na iluminação da época.

Danilo Julião, autor da dissertação "As inscrições latinas nos monumentos do Rio de Janeiro nos séculos XVIII e XIX", lista 21 inscrições analisadas. Entre elas, o Chafariz do Lagarto, perto do Sambódromo, com a epígrafe "Sitienti populo senatus proeusit aquas anno MDCCLXXXVI": "Ao povo sedento, o Senado deu águas em abundância, no ano de 1786"., Essas inscrições se comportam como um documento diferente dos que estamos acostumados a pesquisar, que são aqueles em papel. Ajudam a contar a história da cidade de outra maneira, reflete Julião.

Para Paulo Knauss, professor do Departamento de História da UFF e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB), a localização das epígrafes históricas em latim demonstra como os registros mais antigos estão ligados aos centros de poder. "Provavelmente, a inscrição mais antiga da cidade seja a da lápide tumular de Estácio de Sá, instalada em 1583 na antiga igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, transferida em 1922 para a igreja dos capuchinhos na Tijuca".

Entre as inscrições longevas, figura o texto gravado no dístico da Ponte dos Jesuítas, em Santa Cruz, de 1752, com versos "Flecte genua tanto sub / Nomine flecte/ Viato hic etiam reflua flectitur / Amnis acqua", "Dobra o joelho sob tão grande nome, dobra viajante. Aqui também se dobra o rio em água refluente".

Na divisa entre Tijuca e Praça da Bandeira, a Associação Cultural Chinesa do Rio exibe ideogramas na fachada. Ju Bao, professora de chinês e de História chinesa, ensina que a inscrição traz o nome da entidade, Associação Chinesa de Amizade do Rio, e a sigla.

## Perguntas Frequentes

### Qual é o significado da inscrição em persa antigo no Theatro Municipal?

A frase decifrada em 2025 diz "Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario", composta a partir de elementos da escrita persa antiga.

### Quem decifrou a inscrição persa no Rio?

Os professores Alex Mazzanti Junior (UFRJ) e Matheus Treuk (Uerj) publicaram o artigo em abril de 2025.

### Onde estão as inscrições em latim no Rio de Janeiro?

Exemplos incluem a fachada da antiga fábrica de gás na Avenida Presidente Vargas, o Chafariz do Lagarto e a Ponte dos Jesuítas em Santa Cruz.

### O que significa "Ex Fumo Dare Lucem"?

É um verso de Horácio que significa "a luz a partir da fumaça", representando a modernização da iluminação pública do Rio em 1853.

### Qual é a inscrição mais antiga do Rio?

A lápide tumular de Estácio de Sá, de 1583, atualmente na igreja dos capuchinhos na Tijuca.

### O que diz a inscrição em chinês na Associação Cultural Chinesa?

Traz o nome da entidade, Associação Chinesa de Amizade do Rio, e a sigla, sem mistério.

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