Economia

Descontrole das contas públicas e os juros que você paga

ResumoO descontrole das contas públicas eleva a dívida do governo, pressionando a taxa básica de juros para conter a inflação. O aumento da Selic encarece o crédito para empresas e consumidores, elevando o custo de financiamentos e empréstimos pessoais. O mecanismo liga déficit fiscal, emissão de títulos e política monetária, transferindo o risco fiscal diretamente ao bolso do cidadão.

O desequilíbrio das contas públicas parece distante, mas chega direto ao seu crédito. Entenda o mecanismo que liga déficit, dívida e juros.

Eduardo Tannous
Eduardo Tannous Economista e analista macro · 01 de setembro de 2026
Descontrole das contas públicas e os juros que você paga

O desequilíbrio das contas públicas parece uma discussão distante da rotina das famílias, mas o efeito chega de forma direta ao crédito. Quando o governo precisa tomar mais dinheiro emprestado para financiar despesas, ele disputa recursos com empresas e consumidores, pressionando as taxas cobradas na economia.

A explicação foi dada por Tiago Sbardelotto, economista da XP, durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney. Segundo ele, a lógica é semelhante à de um orçamento doméstico: se as despesas ficam acima das receitas por muito tempo, a dívida cresce. A diferença é que, no caso do governo, o tamanho dessa necessidade de financiamento afeta todo o mercado.

"Como esse cara é muito grande, falando do governo aqui, que trabalha ali com trilhões por ano, significa que ele está sugando a liquidez desse mercado, que ele está pegando muito recurso para ele e está deixando menos recurso para ser emprestado para o restante da economia", afirmou.

Com menos dinheiro disponível para financiar empresas e famílias, o custo dos empréstimos tende a aumentar. Por isso, segundo Sbardelotto, o equilíbrio fiscal tem um efeito que vai além das contas do Tesouro. "Então a gente tem um benefício indireto do controle das contas públicas, que é justamente essa taxa de juros menor", disse.

O avanço da dívida pública também influencia a chamada taxa de juros neutra, aquela compatível com inflação estável e economia funcionando perto do potencial. Quanto maior o risco associado às contas públicas, menor tende a ser o espaço para o Banco Central promover cortes mais profundos na taxa básica sem pressionar a inflação.

O efeito também pode ocorrer pela demanda. Se o governo amplia despesas enquanto a economia opera perto de sua capacidade, injeta mais recursos em circulação sem que a oferta de bens e serviços cresça na mesma velocidade. A pressão sobre os preços aumenta, e o Banco Central pode ser obrigado a manter os juros elevados por mais tempo.

Para Sbardelotto, esse é o elo que conecta uma discussão aparentemente abstrata sobre déficit e dívida às condições de financiamento de consumidores e empresas. Um governo que precisa captar cada vez mais recursos deixa menos dinheiro para o setor privado. No fim dessa cadeia, a conta pode aparecer no financiamento da casa, do carro, no crédito empresarial e nos juros pagos pelas famílias.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e nos principais tocadores de podcast.

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