Economia

Embrapa enfrenta risco de deterioração: crise no orçamento e na gestão

ResumoEmbrapa enfrenta risco de deterioração de capacidades, conforme relatório de pesquisadores da UFRJ e Unicamp. A instituição sofreu queda de 80% dos recursos para pesquisa em uma década, comprometendo laboratórios e gestão. A crise orçamentária e administrativa ameaça a liderança da Embrapa em pesquisa agrícola tropical.

Relatório coordenado por pesquisadores da UFRJ e Unicamp revela que a Embrapa, considerada uma das maiores instituições de pesquisa agrícola tropical do mundo, enfrenta deterioração silenciosa de suas capacidades, com queda de 80% dos recursos para pesquisa em uma década e labora

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 19 de julho de 2026
Embrapa enfrenta risco de deterioração: crise no orçamento e na gestão

Ilha de excelência que impulsiona o agro, Embrapa enfrenta risco de deterioração

Relatório de pesquisadores aponta que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), considerada uma das maiores instituições de pesquisa agrícola tropical do mundo, enfrenta risco elevado de deterioração silenciosa de suas capacidades. O documento, coordenado por Ana Célia Castro (UFRJ/Cebri) e Antônio Márcio Buainai (Unicamp), revela queda de 80% dos recursos para pesquisa em uma década, laboratórios ociosos e dificuldade em atrair cientistas de dados e IA.

A Embrapa, estatal brasileira que ajudou o Brasil a se tornar potência agrícola, enfrenta um cenário de crise estrutural e de gestão na produção científica, comum em universidades e institutos públicos do país. O levantamento, chamado "Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias", foi feito pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), resultado de projeto da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais, realizado entre 2023 e 2024, e envolveu nove pesquisadores da Unicamp e da UFRJ, além de especialistas da própria Embrapa. O texto foi revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo GLOBO.

O orçamento que encolheu e os laboratórios ociosos

Segundo o relatório, a verba destinada às pesquisas, em valores nominais, encolheu de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024, uma queda de 84%. O orçamento global de custeio, que inclui manutenção de laboratórios, campos experimentais e infraestrutura, caiu de R$ 633,8 milhões em 2011 para R$ 299,7 milhões em 2025. Na prática, isso significa construção de laboratórios sem previsão de receita para manutenção, gerando depreciação e ociosidade dos prédios, além de reagentes laboratoriais para experimentos científicos vencidos devido à demora na tramitação das compras.

O teto precoce da carreira e a dificuldade de atrair IA

O documento aponta que a maior parte dos pesquisadores está no topo da carreira, o que torna cara a folha de pagamentos da empresa, enquanto não há renovação dos quadros. O plano de cargos permite que muitos pesquisadores alcancem o topo salarial entre dez e 15 anos, gerando um "teto precoce" que cria estrutura rígida, já que não há mais para onde progredir economicamente, desincentivando a inovação. O levantamento indica dificuldade em atrair cientistas de dados e especialistas em IA, profissionais mais requisitados por empresas de ponta em tecnologia e inovação.

"Isso inverte a lógica institucional, fazendo com que as prioridades científicas sejam ditadas pela disponibilidade de recursos externos e não pela estratégia de Estado de longo prazo", escreveram os pesquisadores no relatório.

Tecnologias disruptivas e mosaico de plataformas

O relatório diz que a Embrapa não tem estratégia clara para lidar com tecnologias disruptivas, como IA, e opera com "mosaico" de plataformas de informática não integradas, gerando insegurança dos dados nas pesquisas. Esse cenário contrasta com o legado da estatal, que nas últimas décadas transformou o Brasil em uma das maiores potências agrícolas do mundo.

O legado que impulsiona o agro brasileiro

Mesmo enfrentando os problemas citados, a importância da Embrapa é reconhecida por especialistas do agro. Foi através das pesquisas da estatal que o Brasil ocupou o Cerrado na década de 70, com tecnologias de correção do solo e cultivares adaptados em áreas antes consideradas inférteis. Hoje, culturas como soja, milho, algodão e sorgo da região Centro-Oeste respondem por 60% de tudo que é cultivado no país.

Dos laboratórios da Embrapa saiu a técnica de fixação biológica de nitrogênio, que utiliza bactérias para substituir fertilizantes químicos, gerando bilhões de reais em economia aos produtores e reduzindo o impacto ambiental. A criação de centenas de variedades de soja e pastagens, como a braquiária, adaptadas aos diferentes microclimas e biomas do país, aumentou a produtividade no campo em mais de 300% em três décadas.

"A Embrapa possui o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores do mundo", lembra Glaucia Maria Pastore, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Perguntas Frequentes

O que diz o relatório sobre a crise da Embrapa?

O relatório aponta deterioração silenciosa das capacidades da estatal, com queda de 80% dos recursos para pesquisa em uma década, laboratórios ociosos, reagentes vencidos e dificuldade em atrair especialistas em IA.

Quem coordenou o estudo sobre a Embrapa?

O relatório foi coordenado por Ana Célia Castro, professora da UFRJ e pesquisadora do Cebri, e Antônio Márcio Buainai, professor da Unicamp, com participação de outros sete pesquisadores.

Quanto caiu o orçamento de pesquisa da Embrapa?

A verba destinada às pesquisas encolheu de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024, em valores nominais. O orçamento de custeio caiu de R$ 633,8 milhões em 2011 para R$ 299,7 milhões em 2025.

Por que a Embrapa é importante para o agro brasileiro?

A Embrapa desenvolveu tecnologias que permitiram a ocupação do Cerrado, a fixação biológica de nitrogênio, centenas de variedades de soja e pastagens adaptadas, aumentando a produtividade em mais de 300% em três décadas.

Qual o principal problema de gestão apontado no relatório?

O "teto precoce" da carreira, que permite atingir o topo salarial entre dez e 15 anos, gera estrutura rígida que desincentiva a inovação e dificulta a atração de cientistas de dados e especialistas em IA.

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