Faixa das Malvinas leva disputa geopolítica da Argentina à Copa do Mundo
A faixa erguida por jogadores argentinos após vitória sobre a Inglaterra na semifinal da Copa reacendeu a disputa geopolítica pelas Ilhas Malvinas. O ato, que pode gerar punições da Fifa, foi defendido por diplomatas e pelo presidente Milei, e expõe décadas de tensão entre Argent
O gesto que parou o mundo
Na quarta-feira, 15 de junho, a imagem de jogadores da Argentina erguendo uma faixa com a frase "As Malvinas são argentinas" percorreu o mundo. O ato ocorreu após a vitória da seleção sobre a Inglaterra por 2 a 1, na semifinal da Copa do Mundo. Pela regra da Federação Internacional de Futebol (Fifa), a manifestação pode gerar punições, mas fora dos gramados reacendeu a discussão sobre a posse do arquipélago ultramarino, reivindicado pela Argentina e administrado pela Grã-Bretanha.
O que dizem os diplomatas argentinos
A diplomata e ex-embaixadora da Argentina no Reino Unido, Alicia Castro, afirmou à Agência Brasil que o gesto dos jogadores, ao exibir uma bandeira confeccionada por um torcedor a partir de um lençol de hotel, tornou-se um feito compartilhado por todo o povo argentino. Ela comparou o ato ao do técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, que ergueu uma bandeira da Palestina sem ser punido porque a seleção palestina é afiliada à Fifa.
O embaixador Guillermo Carmona, secretário das Malvinas do governo argentino até 2023, no governo de Alberto Fernández, afirmou que a abertura da faixa foi um ato de "soft power" para destravar as negociações. "Isso não pode continuar indefinidamente", disse, referindo-se à administração britânica. "O gesto dos jogadores deveria despertar os diplomatas britânicos de sua inércia e forçá-los a confrontar uma realidade geográfica e histórica inescapável", reiterou.
O contexto histórico das Ilhas Malvinas
As Ilhas Malvinas/Falklands são um território a sudoeste do Oceano Atlântico, a 500 quilômetros da costa argentina, administrado pelo Reino Unido. A Argentina considera o arquipélago parte de seu território e mantém uma reivindicação de soberania. As Nações Unidas (ONU) defendem uma solução pacífica no âmbito das ações de descolonização.
Em 1982, os dois países se enfrentaram em uma guerra de 74 dias que deixou centenas de mortos, a maioria soldados argentinos. Derrotada, a Argentina trata a questão como uma "ferida aberta". Na Copa do Mundo de 1986, quatro anos depois da guerra, a vitória da albiceleste sobre a Inglaterra por 2 a 1 foi encarada como revanche, com dois gols de Diego Maradona.
A memória coletiva e o desconforto britânico
O cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, disse que a questão das Malvinas está presente nos cânticos das torcidas e em campeonatos. "A torcida da seleção traz essas lembranças, assim como os clubes locais. Todos fazem alguma menção à questão das Malvinas", afirmou. "Essa é uma agenda que unifica o país, está acima de qualquer divergência ideológica", pontuou.
O colunista Simon Jenkins, em artigo no jornal The Guardian, pediu negociação entre os países, destacando que o território custa aos contribuintes mais de 60 milhões de libras anuais. "Nenhum dos territórios britânicos da era imperial tem o direito eterno de permanecer como está", escreveu.
Reação do governo argentino
O presidente Javier Milei, em entrevista à Rádio El Observador, disse que compreende os sentimentos dos jogadores e que o ato de protesto foi "válido e lícito". Milei prometeu esforços para recuperar o território, mas apenas pelas vias diplomáticas. "As Malvinas são argentinas e nós vamos recuperá-las", afirmou.
A posição da Fifa e as punições
A Fifa não comentou as críticas e explicou que, no caso de manifestações políticas, o procedimento padrão é acionar o Comitê Disciplinar Independente. O órgão já avalia os relatórios da partida e decidirá novos passos de acordo com o Código Disciplinar da entidade. Em 2014, a federação multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em US$ 33 mil após jogadores exibirem faixa com a mesma mensagem antes de um amistoso contra a Eslovênia.
A evolução histórica da disputa
Desde o "descobrimento", as Ilhas Malvinas pertenciam à Espanha, apesar de ocupações por franceses e ingleses. Após a independência argentina em 1816, o país considerava ter herdado o arquipélago, mas a administração local foi expulsa pelos ingleses em 1833. A Grã-Bretanha queria a passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico e instalar uma base militar. Hoje, o local também é disputado por riquezas minerais, como petróleo.
Até a primeira metade do século 20, as Ilhas não eram prioridade para os argentinos, mas o tema voltou no governo Perón (1946-1955), que buscou cooperação com os habitantes ingleses locais. Em junho de 2026, a ONU, por meio do Comitê de Descolonização, reiterou a necessidade de uma solução pacífica e negociada.
Perguntas Frequentes
O que a faixa dizia?
A faixa erguida pelos jogadores argentinos trazia a frase "As Malvinas são argentinas".
A Fifa pode punir os jogadores?
Sim. A Fifa pode acionar o Comitê Disciplinar Independente, que avalia relatórios da partida e decide com base no Código Disciplinar da entidade.
Qual foi a reação do governo argentino?
O presidente Javier Milei considerou o ato "válido e lícito" e prometeu recuperar o território por vias diplomáticas.
O que dizem os diplomatas argentinos?
Alicia Castro e Guillermo Carmona defenderam o gesto como um ato de "soft power" e um imperativo ético contra o colonialismo.
Quando ocorreu a guerra das Malvinas?
Em 1982, Argentina e Reino Unido se enfrentaram em uma guerra de 74 dias, com centenas de mortos, a maioria soldados argentinos.
Há precedente de punição similar?
Sim. Em 2014, a Fifa multou a AFA em US$ 33 mil por faixa semelhante antes de amistoso contra a Eslovênia.