Economia

Economistas destacam Fed e retorno mais tempestivo à meta de 2%

ResumoO Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual em 16 de dezembro e sinalizou retorno mais rápido à meta de inflação de 2%. Economistas interpretaram o comunicado como de tom mais duro e projetam ao menos mais uma alta de juros em 2026, refletindo preocupação persistente com a inflação acima da meta.

Federal Reserve subiu os juros em 0,25 p.p. nesta quarta (16) e o comunicado apontou para um retorno mais tempestivo à meta de 2%. Economistas veem tom mais duro e ao menos mais uma alta em 2026.

Fábio Quaresma
Fábio Quaresma Especialista em finanças pessoais · 16 de setembro de 2026
Economistas destacam Fed e retorno mais tempestivo à meta de 2%

O Federal Reserve elevou nesta quarta-feira (16) a taxa de juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, dentro do esperado. O chairman Kevin Warsh não deu guidance no discurso nem na coletiva, mas a soma do comunicado com as projeções dos diretores aponta para pelo menos mais uma alta neste ano, segundo economistas.

O Fed elevou os juros dos EUA em 0,25 p.p. nesta quarta (16) e sinalizou um retorno mais tempestivo à meta de 2%. A mediana das projeções para o fim de 2026 subiu de 3,8% para 4,1%, indicando ao menos mais uma alta neste ano. O comunicado foi aprovado por 12 votos a zero.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que as projeções vieram integralmente altistas para este ano, em todas as variáveis ao mesmo tempo. "Crescimento maior, desemprego menor, inflação mais alta e juros mais altos por mais tempo", listou. Para ele, a mediana de 4,1% para o fim de 2026 resume a mensagem e fica acima do ponto médio do intervalo aprovado hoje, de 3,8%. "Ou seja, o Comitê projeta mais uma elevação de 0,25 p.p. ainda neste ano, cenário reafirmado pelo dot plot."

Sung destacou ainda a unanimidade de 12 a zero, em contraste com julho, quando três diretores divergiram da manutenção por preferirem exatamente o movimento entregue hoje. "A unanimidade, a nosso ver, comunica mais do que a taxa em si: o cenário econômico não registrou melhora e não há no Comitê uma ala disposta a defender a estabilidade dos juros", explicou.

Sobre o comunicado, o economista apontou a mudança mais significativa no parágrafo da inflação, que tornou o texto mais duro que o de julho. Na reunião anterior, o Comitê afirmava que os preços permaneciam elevados frente à meta de 2%, em parte por choques de oferta que pressionaram setores como energia. Agora, reduziu o diagnóstico a uma frase seca, de que a inflação segue elevada, e acrescentou que a medida de política monetária de hoje apoiará um retorno mais célere à meta de 2%.

Warsh reforçou essa leitura na coletiva. "A inflação é o problema. Preços instáveis têm sido o problema por mais de 5 anos e meio. Então, o que o Comitê decidiu fazer hoje foi tomar uma ação para garantir um retorno mais tempestivo ao nosso objetivo de estabilidade de preços", afirmou.

Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, também deu destaque à unanimidade após o placar dividido de 9 a 3 em julho, sinalizando convergência sobre a necessidade de elevar a taxa para combater a persistência inflacionária. "O comunicado destacou que a economia expande a ritmo sólido e reafirmou o compromisso com a estabilidade de preços." Ela citou a reação do mercado de renda fixa, com o rendimento do título de 2 anos do Tesouro dos EUA avançando 9 bps para 4,69%, enquanto o de 10 anos sobe 5 bps para 5,00. "O movimento atesta o ganho de credibilidade da autoridade monetária. Contudo, a parte mais longa da curva segue sustentando uma elevação acumulada de 80 bps no ano, pressionada pela combinação de inflação de energia, volume elevado de emissões de dívida corporativa e ampliação dos déficits orçamentários nos EUA."

André Valério, economista sênior do Inter, lembrou a declaração de Warsh no Simpósio de Jackson Hole de que, caso a inflação de agosto não indicasse que o processo de desinflação tivesse perdido força, ele votaria por manter a taxa. "Entretanto, os dados de agosto não foram favoráveis a essa visão, com os gastos com energia voltando a pressionar o índice, acompanhado de um núcleo da inflação mais forte que o esperado. Soma-se a isso uma economia americana bastante robusta, com um mercado de trabalho que não dá sinais de que precisa do apoio da política monetária, o Fed se colocou em uma posição em que era obrigado a aumentar os juros hoje. Do contrário, o custo de não aumentar em termos de credibilidade seria excessivamente alto", opinou.

Valério afirmou que as projeções indicam visão de economia aquecida, com revisão para cima do PIB e da inflação e desemprego menor. "Além disso, o comitê enxerga o núcleo da inflação para 2026 levemente acima do que projetavam em junho, mas reduziram a projeção do núcleo para 2027 frente as projeções feitas em junho." "A despeito dessa revisão, os membros antecipam apenas mais uma alta de 25 bps esse ano, possivelmente em dezembro, com os juros sendo mantidos nesse patamar ao longo de 2027", completou. Para ele, dado o pessimismo nos juros americanos, é possível que o mercado leia isso como "dovish" e pressione ainda mais os juros nas próximas sessões. "De toda forma, a capacidade do Fed em entregar apenas mais essa alta dependerá da dinâmica do preço do petróleo. Caso haja alguma resolução mais duradoura em relação ao estreito de Ormuz que permita que o preço do barril retorne ao patamar de US$70 dólares observado após a assinatura do memorando de entendimento em junho, apenas mais uma alta de 25 bps é plausível. Caso contrário, o choque inflacionário de energia pode persistir por mais tempo, forçando o Fed a estender o ciclo de alta além do planejado hoje."

Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital Nova York, avaliou que o tom do comunicado do Fomc foi direto. Na visão dele, diante dos dados de inflação da semana passada, que não foram suficientes para acalmar o mercado, e com o petróleo voltando a superar os US$ 100 por barril, o Fed optou por elevar as taxas em 25 bps para preservar sua credibilidade. "O uso da expressão 'retorno mais tempestivo à meta de 2% do Comitê', junto com uma projeção de juros mais alta para 2027, indica um tom mais 'hawkish' que o de julho, sinalizando o que pode ser o início de ciclo de aumentos na taxa de juros americana", disse. "O Fed com certeza começou o seu esforço máximo contra a inflação. Optou por elevar a taxa a fim de evitar um choque de credibilidade no mercado de renda fixa americano", afirmou. Para Flores, no entanto, o movimento parece precipitado, uma vez que a inflação implícita de 5 e 10 anos está ancorada, o PCE passará por uma revisão metodológica do Bureau of Economic Analysis em 30 de setembro que pode reduzir a leitura da inflação em cerca de 20 bp e as forças-tarefa lideradas por Warsh já vêm promovendo mudanças estruturais relevantes.

Mateus Hammes, head de investimento da Ludo Capital, disse que o principal argumento do Fed para a decisão é a inflação persistente, turbinada pelo choque de petróleo. Ele citou que o barril de Brent ultrapassou os US$ 100 e chegou a US$ 107 nesta semana, após ataques ao oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita e a escalada de tensões envolvendo houthis, Irã e o Estreito de Ormuz, rota que responde por cerca de 4% do abastecimento global. "Kevin Warsh já havia sinalizado o caminho no discurso de Jackson Hole, em agosto, ao afirmar que a inflação segue distante da meta de 2%. Desde então, dados de preços ao consumidor vieram consistentemente acima do esperado, reforçando a leitura de que a pressão inflacionária não é passageira", lembrou.

Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, também avaliou o comunicado como "hawkish". "O principal ponto, na minha visão, não é nem a alta em si, mas o fato de o Fed elevar a projeção de juros para o fim de 2026 de 3,8% para 4,1%, sinalizando que pode haver mais uma alta ainda este ano. É um tom de comitê que não está satisfeito com o processo desinflacionário."

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