# América Latina em minerais críticos: potencial, barreiras e quem paga a conta

> A América Latina possui potencial significativo em minerais críticos para a transição energética, mas enfrenta barreiras como alta necessidade de capital, lacunas tecnológicas e dependência de processamento na China. Grandes empresas como Codelco, SQM e Vale lideram a exploração, enquanto os custos e riscos do desenvolvimento permanecem desafios centrais.

*Global Forum · Economia · 18 de julho de 2026 · Tânia Lustosa*

A América Latina pode se beneficiar dos minerais críticos para a transição energética, mas enfrenta entraves como alta necessidade de capital, lacunas tecnológicas e dependência de processamento na China, segundo relatório da Moody's. Grandes empresas como Codelco, SQM e Vale têm

## América Latina e minerais críticos: um potencial travado por barreiras estruturais

A América Latina está sentada sobre uma das maiores reservas de minerais críticos do planeta, lítio, cobre, níquel, mas transformar esse potencial em riqueza real para a população enfrenta obstáculos que vão muito além da geologia. Um relatório da agência de classificação de risco Moody´s, publicado em 2025, traça um diagnóstico frio: a região tem recursos de alta qualidade, mas esbarra em elevada necessidade de capital, lacunas tecnológicas e uma dependência quase estrutural do processamento asiático, especialmente da China. A pergunta que fica é quem, de fato, colhe os frutos, e quem paga a conta.

Segundo a Moody´s, o ambiente competitivo da América Latina para minerais críticos é bifurcado entre produtores estabelecidos de grande escala e novos participantes, com barreiras mais elevadas para os participantes mais novos e de menor porte. Produtores incumbentes de grande escala e em conformidade regulatória, como a Corporación Nacional del Cobre (Codelco) e a Sociedad Química y Minera de Chile (SQM), do Chile, e a Vale, do Brasil, têm uma vantagem competitiva. Essas empresas já têm operações, contratos e acesso a financiamento, um luxo que os recém-chegados não têm.

### Novos participantes enfrentam barreiras de entrada elevadas

Participantes mais novos enfrentam barreiras de entrada mais elevadas, particularmente para obter financiamento sem operações estabelecidas ou contratos firmes de offtake, mesmo que tenham recursos de alta qualidade e operações de baixo custo. Enquanto isso, os regimes regulatórios latino-americanos estão se tornando mais complexos e com maior fiscalização, elevando os riscos de licenciamento, estendendo os prazos e aumentando a intensidade de capital, mudanças que afetam desproporcionalmente participantes menores e mais novos.

A empresa de classificação de risco explica que, apesar dos fortes fundamentos da região para minerais críticos, as condições latino-americanas são mais complexas para projetos downstream do que para a mineração upstream, devido aos obstáculos estruturais persistentes. "Além dos recursos de alta qualidade, os investidores valorizam suporte regulatório, infraestrutura adequada, parcerias técnicas, execução eficaz de políticas ambientais e sociais e gestão disciplinada da exposição aos ciclos de commodities. A incerteza em torno das políticas públicas e regulatória permanece um risco central, podendo provocar atrasos mesmo em projetos que, em outras condições, seriam atrativos", lista a Moody´s.

### Grandes empresas atraem investimentos; pequenas ficam para trás

A agência explica que projetos bem estruturados, de baixo custo e alinhados a políticas terão desempenho melhor que aqueles com risco maior de refinanciamento e execução. Assim, grandes empresas estabelecidas, como Codelco, SQM e Vale, continuarão a atrair investimentos, juntamente com grandes empresas globais, como a BHP e a Rio Tinto, e novos participantes do segmento de lítio. "No entanto, a incerteza em torno das políticas, limitações de infraestrutura, desafios ambientais e sociais e volatilidade de preços tendem a pressionar a qualidade do perfil de crédito, elevar os custos de financiamento e atrasar a execução dos projetos", alerta.

### Infraestrutura deficiente encarece a produção

O relatório destaca ainda que a viabilidade econômica de um projeto pode depender de restrições de infraestrutura e logística, como acesso à energia de baixo custo, água e transporte, que podem ou não estar disponíveis nas proximidades. "Sistemas rodoviários deficientes e a falta de acesso a portos tornam os custos de produção de lítio muito mais altos na Argentina do que no Chile", destaca. Congestionamento portuário e redes de transporte envelhecidas também podem atrasar as exportações e elevar os custos até mesmo para mineradoras estabelecidas no Chile e no Peru.

"Os riscos técnicos e de execução também são considerações importantes para os investidores. A produção de materiais para baterias exige conhecimentos químicos avançados, controle consistente do processo e a capacidade de cumprir as rigorosas especificações de qualidade exigidas por clientes globais", cita o estudo. A Moody´s avalia que muitas operadoras latino-americanas não têm essa experiência, o que aumenta a sua dependência de parceiros tecnológicos estrangeiros e o risco de atrasos, excessos de custos ou operações de subescala. A China, por exemplo, tem experiência, cadeias de abastecimento integradas e economias de escala que os novos participantes não conseguem replicar rapidamente.

### Volatilidade de preços e dependência asiática

Os riscos de mercado e a volatilidade dos preços adicionam mais uma camada de incerteza para projetos de minerais críticos, com forte oscilação de preços, mesmo com demanda robusta de transição energética de longo prazo, destaca o estudo. "Os preços do lítio subiram para cerca de USD80/kg no final de 2022, antes de cair para cerca de USD10/kg em 2024, enquanto os preços do cobre também flutuaram com as expectativas de crescimento global e os ciclos de demanda chineses. Essa volatilidade aumenta o custo do capital, complica o financiamento e atrasa as decisões finais de investimento. Projetos com contratos de offtake de longo prazo, baixos custos e balanços patrimoniais sólidos podem suportar mais facilmente esses ciclos do que aqueles que dependem de mercados à vista ou financiamento externo contínuo".

A Moody´s diz também que, como a construção de capacidade de refino e processamento é intensiva em capital, tecnicamente complexa e exige prazos longos, os projetos na América Latina dependem frequentemente de parcerias com fornecedores consolidados. A agência lembra que essas parcerias viabilizam o acesso a conhecimento técnico especializado, asseguram a demanda por meio de compradores previamente definidos e contribuem para a mitigação do risco de financiamento. "Projetos de lítio no Chile e na Argentina, bem como produtores de níquel e lítio no Brasil, firmaram parcerias com empresas asiáticas para tecnologia e contratos de offtake (compra mínima) de longo prazo.

### O que são minerais críticos?

Minerais críticos são matérias-primas essenciais para a transição energética, tecnologias avançadas e segurança nacional, e enfrentam riscos elevados de oferta devido à escassez geológica, à concentração geográfica ou à limitação de alternativas. A elasticidade dos preços no médio prazo é relativamente baixa, com a demanda proveniente de investimentos impulsionados por políticas em bens de capital de longa vida útil, como EVs, redes elétricas, geração de energia renovável e armazenamento em escala de rede, e não do consumo discricionário.

## Perguntas Frequentes

### Quais são os principais minerais críticos na América Latina?

Os principais são lítio, cobre e níquel, com destaque para Chile, Argentina e Brasil, segundo o relatório da Moody´s.

### Por que a América Latina não consegue processar seus próprios minerais?

Falta capacidade tecnológica, infraestrutura e capital. A região depende de parcerias com empresas asiáticas, especialmente chinesas, para refino e processamento.

### Quais empresas se beneficiam mais do setor na região?

Grandes empresas estabelecidas como Codelco, SQM, Vale, BHP e Rio Tinto têm vantagem competitiva e atraem mais investimentos.

### Como a volatilidade dos preços afeta novos projetos?

Preços do lítio caíram de USD80/kg (2022) para USD10/kg (2024), elevando custos de financiamento e atrasando decisões de investimento. Projetos com contratos de longo prazo se saem melhor.

### O que o Brasil tem a ganhar com minerais críticos?

O Brasil tem a Vale como player estabelecido e projetos de lítio e níquel, mas enfrenta os mesmos desafios de infraestrutura e dependência tecnológica.

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Fonte (canonical): https://globalforum.com.br/economia/como-america-latina-pode-aproveitar-seu-potencial-minerais-criticos/
