Brasil completa 1 ano fora do Mapa da Fome: o que mudou?
Brasil completa 1 ano fora do Mapa da Fome da ONU, mas indicadores mostram que a insegurança alimentar grave ainda atinge milhões. Veja os dados oficiais e os próximos passos.
Brasil completa 1 ano fora do Mapa da Fome, mas desafios persistem
Em setembro de 2025, o Brasil completou um ano fora do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), um feito que exigiu investimentos massivos em transferência de renda e articulação intersetorial. A saída do mapa, anunciada em setembro de 2024, reflete a redução da subalimentação no país, mas não significa o fim da fome. Dados oficiais indicam que a insegurança alimentar grave ainda atinge milhões de brasileiros.
Segundo a FAO, a prevalência de subalimentação no Brasil caiu de 4,1% em 2022 para 2,5% em 2024, o equivalente a uma redução de 40% no número de pessoas que passam fome crônica. Esse indicador levou o país a ficar abaixo do limite de 2,5% estabelecido pela ONU para deixar o Mapa da Fome.
Como o Brasil saiu do Mapa da Fome
A saída do Mapa da Fome foi impulsionada por três pilares principais: ampliação do Bolsa Família, retomada de programas de agricultura familiar e fortalecimento da rede de assistência social. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, o valor médio do benefício subiu de R$ 214 em 2022 para R$ 682 em 2024, alcançando 21 milhões de famílias.
No campo, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) comprou 400 mil toneladas de alimentos da agricultura familiar em 2024, volume 60% superior ao registrado em 2022. Esses alimentos foram destinados a escolas, hospitais e bancos de alimentos, garantindo oferta de comida nutritiva para populações vulneráveis.
Os números da fome hoje
Apesar do marco, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, divulgada em maio de 2025, aponta que 8,7 milhões de pessoas viviam em domicílios com insegurança alimentar grave no quarto trimestre de 2024. Esse número representa 4,1% da população, percentual que, embora menor que os 9,9% de 2022, ainda é alto.
Dados da Rede Penssan, que monitora a segurança alimentar, indicam que a insegurança alimentar moderada a grave afetou 27,6 milhões de brasileiros em 2024. A maioria está concentrada no Nordeste e em famílias chefiadas por mulheres negras.
Desafios persistentes
O principal desafio é garantir que a saída do Mapa da Fome não seja temporária. A FAO alerta que crises econômicas, eventos climáticos extremos e cortes orçamentários podem reverter o quadro. Em 2024, o Brasil registrou 1.200 municípios em situação de seca severa, impactando a produção de alimentos e o emprego rural.
Outro gargalo é a inflação dos alimentos. O IPCA de maio de 2025 mostrou alta de 6,8% no grupo alimentação e bebidas nos últimos 12 meses, pressionando o orçamento das famílias de baixa renda. Para o consultor Marcelo Iorio, especialista em gestão financeira de PMEs, "o caixa da família pobre é o primeiro a sentir o impacto da alta dos preços. Sem controle da inflação de alimentos, o ganho de renda se perde na feira".
O que esperar para os próximos anos
O governo federal anunciou, em agosto de 2025, a segunda fase do Plano Brasil Sem Fome, com meta de reduzir a insegurança alimentar grave para 2% da população até 2027. As ações incluem ampliação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), investimento em armazenagem de grãos e criação de um seguro contra quebra de safra para pequenos agricultores.
Para que o Brasil se consolide fora do Mapa da Fome, será preciso conjugar crescimento econômico, geração de emprego formal e políticas de proteção social. Segundo o Banco Mundial, cada ponto percentual de crescimento do PIB reduz em 0,8 ponto percentual a pobreza extrema em países de renda média como o Brasil.
A relação entre fome e pobreza
A fome no Brasil está diretamente ligada à pobreza extrema. Dados do IBGE mostram que, em 2024, 12,3% da população vivia com renda domiciliar per capita inferior a R$ 250 por mês, linha de pobreza extrema adotada pelo Banco Mundial. Entre esses, a taxa de insegurança alimentar grave chega a 18%, contra 1% entre os 20% mais ricos.
Como a inflação dos alimentos afeta o orçamento doméstico
Programas que funcionam
O Bolsa Família e o PAA são os programas mais citados como responsáveis pela redução da fome. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2025 estima que o Bolsa Família respondeu por 60% da queda da subalimentação entre 2022 e 2024. O programa atende hoje 21 milhões de famílias, com valor médio de R$ 682.
A agricultura familiar também ganhou reforço. O Plano Safra 2024/2025 destinou R$ 71 bilhões em crédito rural para pequenos produtores, volume 34% maior que o da safra anterior. Esses recursos financiam a produção de alimentos básicos como arroz, feijão e mandioca.
O papel das empresas na segurança alimentar
Empresas do setor de alimentos e varejo podem contribuir reduzindo o desperdício. Dados da FAO indicam que o Brasil desperdiça 27 milhões de toneladas de alimentos por ano, o suficiente para alimentar 30 milhões de pessoas. Iniciativas como doação de excedentes e parcerias com bancos de alimentos têm crescido, mas ainda são pontuais.
Para o pequeno empresário, o caminho é planejar a compra de insumos e ajustar o cardápio à sazonalidade. "Precificar errado quebra empresa boa. Quem não controla o custo dos ingredientes em um cenário de inflação de alimentos vai ver a margem sumir", afirma Marcelo Iorio.
Perguntas Frequentes
O que significa estar fora do Mapa da Fome?
Significa que a prevalência de subalimentação no país ficou abaixo de 2,5% da população por três anos consecutivos, critério estabelecido pela FAO.
O Brasil ainda tem fome?
Sim. Embora tenha saído do Mapa da Fome, 8,7 milhões de brasileiros ainda vivem em insegurança alimentar grave, segundo o IBGE.
Quais programas ajudaram a reduzir a fome?
Bolsa Família, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Plano Brasil Sem Fome foram os principais.
A saída do Mapa da Fome é permanente?
Não. Depende de continuidade de políticas públicas e estabilidade econômica. Crises podem reverter o quadro.
Como a inflação afeta a segurança alimentar?
A alta dos preços dos alimentos reduz o poder de compra das famílias, aumentando o risco de fome mesmo com transferência de renda.