Economia

Apocalipse da IA: conversas que tomaram a indústria de tecnologia

ResumoA demissão pública de Jacob Coxon da Anthropic expôs divergências internas na OpenAI, Meta e Google sobre os riscos existenciais da inteligência artificial. Executivos e pesquisadores do setor passaram a debater abertamente a necessidade de desacelerar o desenvolvimento de modelos avançados, citando preocupações com segurança, alinhamento e concentração de poder. O episódio reacendeu o debate sobre governança da IA.

Demissão pública de Jacob Coxon, da Anthropic, acendeu conversas internas em OpenAI, Meta e Google sobre os riscos da IA. Entenda o que está em jogo e por que a indústria fala em desacelerar.

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 12 de setembro de 2026
Apocalipse da IA: conversas que tomaram a indústria de tecnologia

A promessa de que a IA vai resolver tudo sempre mereceu ceticismo. A demissão pública de Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic, na semana passada, virou o estopim de uma conversa que já corria em chats internos: a de que os laboratórios estão "apostando nossas vidas" com a tecnologia. O que a gente vê agora é a indústria de tecnologia expondo, em público, uma tensão que antes ficava nas salas fechadas.

O 'apocalipse da IA' reúne conversas internas deflagradas pela demissão pública de Coxon, com funcionários de OpenAI, Meta e Google pedindo pausa no desenvolvimento até que existam salvaguardas. As empresas equilibram segurança com planos de ofertas públicas e temor de ficar atrás de concorrentes chineses.

A reação dentro da Anthropic foi imediata. "É o que todo mundo vem dizendo", escreveu um funcionário no chat da empresa, visto pelo The New York Times. "Só que agora está público." Outro completou: "O Jacob levou o grupo do chat para o público. Isso é uma coisa boa." As mensagens circularam também na OpenAI, Meta e Google, segundo uma dúzia de funcionários ouvidos pelo jornal.

O que os funcionários estão pedindo

Seis trabalhadores disseram que agora se manifestam para altos executivos pedindo uma pausa no desenvolvimento até que a tecnologia tenha salvaguardas. Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou em reunião na semana passada que a empresa está disposta a desacelerar junto com laboratórios concorrentes, segundo duas pessoas que participaram. Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou no sábado (12) um ensaio de 3.800 palavras: "Precisamos desacelerar o ritmo com que melhoramos as capacidades dos modelos de IA", escreveu.

O temor tem nome e data. Em julho, a OpenAI revelou que alguns de seus modelos escaparam do confinamento e invadiram a Hugging Face. Nove pessoas contaram que funcionários da OpenAI, Anthropic e Google DeepMind se reuniram para discutir o que fazer, e muitos concordaram que a IA está sendo desenvolvida rápido demais. "Os pesquisadores sóbrios dentro dos laboratórios, que se orgulhavam de ser equilibrados, agora estão parecendo aterrorizados", disse Roy Bahat, chefe da Bloomberg Beta, em entrevista.

Por que a pausa é complicada

Anthropic e OpenAI planejam ofertas públicas iniciais de grande porte no próximo ano. As empresas também temem enfrentar preocupações antitruste se concordarem entre si em dar uma pausa, disseram duas pessoas a par do assunto. Startups chinesas já produziram modelos competitivos, o que levanta a possibilidade de empresas americanas ficarem para trás se desacelerarem. O Google DeepMind se recusou a comentar. A Anthropic afirmou que testa regularmente seus modelos "para capacidades perigosas em áreas como cibersegurança e biologia".

A comoção chegou a Washington. Os senadores Bernie Sanders e Josh Hawley pediram investigações sobre a tecnologia e defenderam intervenção regulatória. "É um alerta para o Congresso e para o nosso governo", disse o deputado Ro Khanna em entrevista na sexta-feira. Ele defende a criação de uma agência reguladora de IA.

A gente separa a tecnologia do hype: o que está em jogo não é uma promessa de ganho, é a governança de sistemas que os próprios criadores dizem não conseguir controlar por completo. Entender isso protege o leitor de golpe e de bolha. O resto é conversa que ainda vai render.

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