Economia

Super El Niño ameaça safra do café e pode elevar preços

ResumoO Super El Niño, com 90% de probabilidade entre outubro e janeiro segundo a NOAA, ameaça a florada do café no Sudeste brasileiro. O fenômeno climático pode reduzir a produção da safra, pressionando os preços da bebida para o consumidor. A região produtora enfrenta risco de estiagem e calor excessivo, agravando a oferta já limitada.

A probabilidade de um Super El Niño entre outubro e janeiro é de 90%, segundo a NOAA. O fenômeno pode comprometer a florada do café no Sudeste e elevar ainda mais os preços da bebida para o consumidor.

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 26 de agosto de 2026
Super El Niño ameaça safra do café e pode elevar preços

A probabilidade de um Super El Niño entre outubro e janeiro é de 90%, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Os efeitos esperados incluem seca intensa e temperaturas elevadas no Centro-Oeste e no Sudeste, justamente durante a florada do café. Essa coincidência pode tornar o espresso ainda mais caro para o consumidor.

A florada antecede a formação dos frutos do cafeeiro. Se eventos climáticos comprometerem esse processo, a oferta e a qualidade da próxima safra podem ser afetadas. "A formação da florada dos cafeeiros é o primeiro marcador da safra, e o vingamento é o segundo", afirma Simão Pedro Lima, presidente-executivo da cooperativa Expocacer.

O mercado já começa a precificar esse risco. Pode ser apenas uma questão de semanas para que o café da safra 2026/27 passe a refletir os preços mais elevados esperados para o ciclo 2027/28, cuja colheita começa no fim de maio. Embora o fenômeno esteja se aproximando, ainda há incertezas sobre sua intensidade e alcance nas diferentes microrregiões do Sudeste, principal região produtora do País.

A indústria não vai acumular crédito como hoje acumula. O café é uma cultura perene, o que dificulta estimativas precisas de produção, diferentemente da soja, cujo ciclo dura entre 90 e 100 dias. "Os produtores estão com expectativa de produção mais prejudicada, daí mais confortáveis em esperar para realizar vendas do ciclo atual sob cotações mais elevadas", diz o executivo da Expocacer, cooperativa sediada em Patrocínio, no Cerrado mineiro.

O tamanho do impacto sobre os preços ainda é incerto. A única certeza é que o consumidor continuará pagando caro pelo café. Atualmente, a saca de 60 quilos de café de qualidade média é negociada acima de R$ 1.800. A safra atual do Brasil, maior produtor mundial da commodity, é considerada recorde, com projeções revisadas para algo entre 70 milhões e 71 milhões de sacas, ainda muito acima das 56,5 milhões de sacas registradas na safra anterior.

"Só a entrada desse volume de café no mercado nesta época já seria motivo para queda dos preços", afirma Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, de Santos. Mas outros fatores têm sustentado as cotações, como o nível reduzido dos estoques globais, agravado em 2024, ano também marcado pela ocorrência do El Niño. "O consumo mundial passou a depender cada vez mais das safras atuais, porque os níveis de estoques são baixos para as indústrias organizarem estrategicamente suas programações de entrega à demanda", afirma Carvalhaes.

Além disso, os efeitos da guerra no Oriente Médio continuam provocando distorções no comércio global. A alta dos combustíveis, os bloqueios a navios e as alterações de rotas marítimas a partir do Estreito de Ormuz têm impacto direto sobre os custos de frete. Somam-se a isso os elevados níveis de estresse nos mercados financeiros globais, com hedge funds ajustando posições com maior frequência, refletindo a crescente instabilidade das economias centrais, intensificada após o conflito entre Estados Unidos e Irã. "O café é das commodities a mais líquida e a que mais reflete essas reações à geopolítica", afirma Carvalhaes.

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