Recuperação judicial cresce 41,4% entre micro e pequenas empresas
Micro e pequenas empresas sob recuperação judicial chegaram a 2.821 em junho, alta de 41,4% sobre 2025. Gestão familiar e falta de garantias dificultam a reestruturação e elevam o risco de falência.
A recuperação judicial deixou de ser problema só de empresa grande. Em junho, 2.821 micro e pequenas empresas estavam sob proteção da Justiça em processos de reestruturação, um salto de 41,4% sobre o mesmo mês de 2025, segundo o levantamento Monitor RGF-BizDoc. O ritmo é quase o dobro do registrado pelas médias e grandes, que avançaram 21,2% no período.
No semestre, o comércio concentra a maior parte dos processos: alta de 18,3% entre as micros e 11,2% nas pequenas, contra 8% da taxa geral.
O pano de fundo é conhecido de quem tenta manter as contas em dia. Juros elevados por muito tempo encarecem o crédito e mordem o caixa. O consumo recuou, pressionado pelo endividamento das famílias. Para o pequeno negócio, pesam dois agravantes: a gestão costuma ser familiar e pouco profissionalizada, com menos capacidade de prever e contornar crises, e falta patrimônio próprio para oferecer em garantia a credores.
"Pequenas empresas têm um componente emocional grande, o negócio do pai que contrata o filho, é amigo do fornecedor. E falta especialização em crise. Isso dificulta decisões", afirma Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados/BizDoc. Segundo ele, o ideal é nem chegar à recuperação judicial, porque nesses segmentos as chances de o processo terminar em falência são maiores.
O custo do crédito é uma das principais dores. O Pronampe, linha criada em 2020 para socorrer esses negócios na pandemia, usa recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO) em caso de calote. Mas surgiu com a Selic a 2% ao ano, hoje em 14%, e a taxa corrige o saldo devedor acrescida de 6%. Em 2026, o Novo Desenrola revisou regras, ampliando carência, prazo, limite e recursos via FGO.
Casos reais mostram que dá para reagir. Maria Margarida Santos, dona de uma pizzaria há quase seis anos, contratou empréstimo para comprar equipamentos, se endividou e chegou a pensar em fechar as portas. Descobriu ainda uma multa da Receita Federal após cair na malha fina. Está há um ano em reestruturação, já renegociou dívidas e aguarda acordo com o Fisco. A meta é construir reserva de R$ 60 mil. "Passei a separar as contas. Aprendi a gerir o negócio. Corrigimos os preços e agora estou tendo um lucro na casa dos 22%", conta.
A MAMplast Recicláveis também passou por reestruturação após o empresário Alcyr Quintino perceber, em 2019, que a empresa caminhava para o vermelho. Dividiu a organização em departamentos e criou processos e indicadores. Veio a pandemia, recorreu a crédito, mas seguiu operando. "Está pior, mas estou mais estruturado, e é por isso que estou vivo", diz.
Já o Grupo Florencio, de Saúde e Segurança do Trabalho, perdeu o principal cliente. As sócias Laureni e Laura Florencio mapearam dívidas e buscaram o Sebrae. O faturamento, que caiu de R$ 15 mil para R$ 3 mil mensais, hoje está em R$ 40 mil. "O grande desafio é lidar com pessoas. Temos que nos reinventar", afirma Laura.
Especialistas ouvidos pela reportagem listam caminhos para estancar a crise antes que ela vire processo. Separar contas pessoais da contabilidade, definir pró-labore compatível e não tratar dinheiro emprestado como lucro. Fazer diagnóstico financeiro levantando o que há a receber, a pagar, dívidas, juros, prazos e estoques. Projetar fluxo de caixa e renegociar prazos. Diversificar fontes de receita e de crédito, com cooperativas, investidores anjos, fundos e crowdfunding. Avaliar com profissionais a viabilidade da operação e as alternativas extrajudicial ou judicial. Mapear juros, tarifas e garantias de cada linha antes de trocar dívida. E calcular a margem real de cada venda, revisando preços e cortando desperdícios sem comprometer a qualidade.
Para quem está no aperto, o recado é direto: orçamento honesto começa anotando tudo, e a hora de agir é antes de o caixa secar. como montar reserva de emergência renegociação de dívidas com banco